Sheron Menezzes e o novo protagonismo negro na TV Globo
Sheron Menezzes assumiu o protagonismo da novela das sete da Globo. A frase é simples. O significado, complexo.
Pela primeira vez em décadas, uma atriz negra carrega sozinha o horário nobre vespertino da emissora que moldou o imaginário brasileiro por meio século. Não como coadjuvante. Não em papel subalterno. Como protagonista absoluta de "Por Você".
O contexto que a TV não mostra
A escalação de Menezzes não acontece no vácuo. Ela resulta de uma reconfiguração do presidencialismo de coalizão que sempre governou a teledramaturgia brasileira.
Durante décadas, a Globo operou sob um modelo de aliança tácita com o Brasil branco de classe média. Protagonistas negros eram exceção estatística. Personagens negros ocupavam a periferia das tramas — empregadas, motoristas, figuração.
Esse arranjo começou a rachar sob pressão externa. Movimentos sociais digitalizados. Métricas de diversidade exigidas por anunciantes internacionais. Concorrência de plataformas de streaming com políticas explícitas de representatividade.
A coalizão se reorganiza
A emissora respondeu como qualquer estrutura de poder ameaçada: cooptou a demanda e a transformou em estratégia.
Menezzes não chegou ao protagonismo por revolução interna. Chegou porque o custo político de mantê-la fora se tornou maior que o custo de incluí-la. Uma lógica familiar a quem estuda formação de governos.
"Falar com mulheres reais", disse a atriz sobre sua personagem Bela. A frase revela o novo contrato social que a Globo tenta estabelecer com sua audiência fragmentada.
A representatividade deixou de ser concessão. Virou commodity em disputa no mercado audiovisual.
Os limites do avanço
Mas há ressalvas estruturais. Menezzes protagoniza a novela das sete, não das nove. O horário de menor prestígio na grade. Menor orçamento. Menor alcance histórico.
A hierarquia permanece. Apenas se sofisticou.
É o equivalente televisivo de nomear ministros negros para pastas de segundo escalão enquanto Fazenda, Justiça e Relações Exteriores permanecem em mãos tradicionais.
A comparação não é forçada. Emissoras de TV operam exatamente como sistemas políticos: distribuem poder, formam alianças, concedem espaços para neutralizar oposições.
Precedente frágil ou permanente?
A questão central: esse protagonismo se consolida ou evapora conforme os ventos mercadológicos?
Precedentes importam. Na política, uma nomeação pode abrir caminho ou servir de álibi para décadas de inércia.
O teste virá nas próximas escalações. Se Menezzes for seguida por outras atrizes negras em horários nobres, teremos mudança estrutural. Se ela permanecer exemplo isolado, teremos apenas gestão de crise reputacional.
Quem ganha, quem perde
Ganha a atriz, obviamente. Ganha a representatividade simbólica de milhões de brasileiros negros que nunca se viram no centro da narrativa.
Ganha a Globo, que moderniza sua imagem sem alterar fundamentalmente as estruturas de poder interno.
Perde quem esperava transformação mais profunda. Porque inclusão pelo topo, sem democratização da base, produz tokens, não revolução.
A dramaturgia brasileira espelha o presidencialismo de coalizão que governa o país: mudanças cosméticas para preservar essências. Alianças táticas para adiar rupturas.
Sheron Menezzes protagoniza uma novela. Mas também protagoniza uma negociação mais ampla sobre quem tem direito de estar no centro da história.
Resta saber se essa negociação produzirá novo pacto ou apenas apaziguará tensões até a próxima crise de audiência.