Sergipe: o machismo que volta como vice feminina no palanque
A convenção do Republicanos em Sergipe, na segunda-feira 20 de julho, materializou uma das contradições mais reveladoras da política brasileira contemporânea: o machismo que se autoparodia ao tentar se redimir.
Valmir de Francisquinho, ex-prefeito de Itabaiana, oficializou sua candidatura ao governo estadual com uma vice mulher. A escolha recai sobre a filha de um ex-governador — detalhe que importa, e muito. Não se trata de qualquer mulher. Trata-se de alguém com sobrenome, capital político herdado, inserção nas estruturas tradicionais de poder.
O precedente que não se esconde
Semanas antes, Valmir protagonizou episódio de declaração machista que circulou nas redes e gerou desgaste imediato. A sequência é conhecida: fala problemática, repercussão negativa, gestão de crise via assessoria, escolha estratégica de uma mulher para a chapa.
Esse roteiro se repete em diferentes pontos do país. O que muda são os nomes. O que permanece é a lógica: a presença feminina como reparo de imagem, não como projeto político.
Para Sergipe, estado historicamente marcado por oligarquias familiares e baixa renovação política, a jogada de Valmir representa mais do mesmo. A vice escolhida carrega DNA político tradicional. Seu pai governou o estado. Ela não emerge de movimento social, de base partidária construída ao longo de anos, de trajetória autônoma no debate público.
Quem contra quem
A disputa em Sergipe coloca Valmir de Francisquinho, representante do bolsonarismo local e das velhas práticas políticas regionais, contra um campo que tenta se apresentar como alternativa — mas que também recorre a nomes de famílias conhecidas.
O Republicanos, partido de Valmir, integra a base de apoio ao governo federal. A escolha da vice não é apenas sergipana. É nacional. Reflete a necessidade de partidos da direita brasileira de responder a críticas sobre machismo estrutural sem alterar, de fato, suas dinâmicas internas de poder.
O que significa para o eleitorado feminino
Pesquisas eleitorais mostram que o voto feminino tem sido decisivo em disputas estaduais. Mulheres avaliam com rigor declarações machistas. Punem nas urnas candidatos que exibem comportamento discriminatório.
A estratégia de Valmir busca neutralizar esse risco. Mas a operação é transparente demais. A vice mulher funciona como escudo, não como protagonista. Ela não constrói agenda própria, não define rumos programáticos, não disputa narrativa.
O recado implícito ao eleitorado feminino é: "Veja, temos uma mulher na chapa". O recado explícito, se houvesse honestidade no discurso, seria: "Mas ela está aí por cálculo, não por convicção".
Sergipe e o laboratório nacional
Estados menores frequentemente servem de laboratório para táticas que depois se nacionalizam. Sergipe, com seus pouco mais de 2 milhões de habitantes, funciona como microcosmo.
A escolha de Valmir interessa para além das fronteiras estaduais. Ela revela como setores conservadores da política brasileira lidam com pressões por representatividade: aceitam a forma, resistem ao conteúdo. Colocam mulheres em chapas, mas não em posições de real decisão. Abrem espaço no palanque, fecham na construção de programa.
A filha do ex-governador
A vice escolhida não é figura aleatória. Seu sobrenome carrega peso eleitoral próprio. Isso facilita a aceitação interna no partido e pode agregar votos em redutos familiares.
Mas reforça outro traço estrutural da política sergipana: a transmissão hereditária de capital político. Pais passam mandatos, influência e redes para filhos. O ciclo se renova sem renovação real.
Para eleitores cansados de dinastias políticas, a chapa de Valmir oferece mais do mesmo embalado como novidade. Para quem defende presença feminina genuína na política, a escolha soa a manobra.
O que vem pela frente
A campanha em Sergipe testará se o eleitorado compra a narrativa de redenção via vice mulher. As pesquisas dirão. As urnas confirmarão ou desmentirão.
O que já se sabe: machismo não se resolve com carteirada. Não se corrige com vice de última hora. Não se supera com sobrenome tradicional ocupando espaço de coadjuvante.
Sergipe vota. O Brasil observa. A contradição está posta. A resposta, em novembro.