Selic travada em 14%: o custo político da âncora fiscal perdida
O Banco Central vai manter a taxa Selic em 14% até dezembro de 2026. Apenas um corte de 0,25 ponto percentual em agosto. Depois, nada.
É o que indica o Boletim Focus desta semana. A mediana de cinco dias úteis cristalizou a visão do mercado: juros estratosféricos por mais dois anos. Para uma economia que já patina, é sentença de crescimento medíocre.
A âncora que não ancora
Juros altos existem por um motivo: desconfiança. O mercado não acredita que o governo Lula conseguirá entregar o superávit primário prometido. As contas públicas sangram. O arcabouço fiscal, apresentado como solução definitiva em 2023, virou peça decorativa.
Sem credibilidade fiscal, o Copom não tem margem para cortar juros. A inflação ronda 5%. O dólar flerta com R$ 6. O Tesouro paga cada vez mais para rolar dívida.
Trata-se de um impasse político travestido de decisão técnica.
Reforma política travada, reformas econômicas inexistentes
A paralisia dos juros reflete paralisia maior: a incapacidade do sistema político brasileiro de produzir reformas estruturais. A reforma tributária avança em câmera lenta, cheia de exceções e remendos. A administrativa nem foi apresentada. A previdenciária é tabu.
O Congresso está mais interessado em distribuir emendas do que em ajustar o Estado. O Executivo negocia governabilidade no varejo, comprando votos a peso de ouro. O Judiciário legisla por omissão dos outros dois poderes.
Esse arranjo institucional — clientelista, fragmentado, avesso a mudanças — impede a construção de consensos mínimos sobre responsabilidade fiscal. E sem consenso fiscal, não há juro baixo.
Precedente histórico: os anos Dilma
A situação atual evoca 2014-2015. Dilma Rousseff venceu a eleição prometendo continuidade do desenvolvimentismo petista. O mercado já desconfiava das contas públicas. A presidente resistiu ao ajuste.
Resultado: inflação escalou, juros subiram para 14,25%, a economia entrou em recessão profunda. O desfecho político é conhecido — impeachment em 2016.
Lula não enfrenta, ainda, crise de tal magnitude. Mas o diagnóstico é similar: expansão fiscal incompatível com inflação controlada e juros baixos. A diferença é que, em 2025, há menos gordura para queimar. A dívida pública está 20 pontos percentuais do PIB acima do patamar de 2014.
Para quem isso importa
Para o cidadão comum, juro a 14% significa:
- Crédito mais caro para financiar casa, carro, capital de giro
- Menos contratações, porque empresas investem menos
- Mais gastos com pagamento de juros da dívida pública — dinheiro que não vai para saúde, educação, infraestrutura
Para o empresário, significa planejamento engessado. Ninguém investe com horizonte de dois anos de juro real acima de 8%.
Para o governo, significa sangria no Orçamento. A despesa com juros da dívida já consome mais de R$ 700 bilhões ao ano — montante superior ao gasto federal com saúde.
A armadilha da popularidade
Lula mantém popularidade razoável. Seu governo não enfrenta pressão de rua. O Congresso é dócil, desde que alimentado. Por que, então, fazer reformas impopulares?
Porque a conta chega. Ela sempre chega.
Com Selic em 14%, o Brasil cresce pouco. Crescendo pouco, arrecada menos. Arrecadando menos, aumenta déficit ou corta gastos emergencialmente. Cortando mal, perde apoio. Perdendo apoio, não aprova reformas. Não aprovando reformas, juro continua alto.
É o círculo vicioso da irresponsabilidade confortável.
O que vem pela frente
O cenário traçado pelo Focus não é irreversível. Mas revertê-lo exige o que o sistema político brasileiro mais evita: escolhas difíceis.
Seria necessário cortar despesas obrigatórias, revisar vinculações orçamentárias, enfrentar lobbies corporativos, reduzir o peso do Estado. Tudo isso demanda reforma política profunda — mudança nas regras do jogo que dessem ao Executivo capacidade de governar sem reféns no Congresso.
Nada disso está no radar.
Enquanto isso, o Brasil segue preso à mediocridade administrada: inflação controlada, mas alta; crescimento positivo, mas pífio; juro elevadíssimo, mas justificado.
A Selic travada em 14% é sintoma, não doença. A doença é a política.