Seca no DF expõe fragilidade do presidencialismo de coalizão
O Distrito Federal amanheceu nesta segunda-feira (20/7) sob alerta amarelo do Instituto Nacional de Meteorologia. A umidade do ar deve oscilar entre 30% e 20%. Temperatura máxima de 26°C. Números que parecem apenas técnicos escondem uma questão política mais profunda: a incapacidade crônica do Estado brasileiro de antecipar crises previsíveis.
Não se trata de catástrofe repentina. A estiagem no Planalto Central segue padrões conhecidos há décadas. O que está em jogo é a arquitetura de tomada de decisão do presidencialismo de coalizão — sistema que distribui poder entre múltiplas legendas, fragmenta responsabilidades e dilui a capacidade de resposta coordenada.
O Custo Político da Fragmentação
Quando a umidade cai abaixo de 30%, a Organização Mundial da Saúde recomenda suspensão de atividades ao ar livre. O alerta do Inmet classifica a situação como "risco potencial". Mas quem responde? O governador do DF? O Ministério do Meio Ambiente? A Casa Civil?
A resposta: todos e ninguém. Esta é a essência do presidencialismo de coalizão brasileiro. Ministérios são distribuídos como moeda de troca política. Pastas técnicas viram feudos partidários. A coordenação entre esferas de governo depende menos de protocolos institucionais e mais de negociações ad hoc.
O resultado prático aparece em números. Brasília registrou 122 dias sem chuva significativa entre maio e setembro do ano passado. Hospitais públicos reportaram aumento de 40% em casos respiratórios no mesmo período. A correlação é direta. A ação preventiva, inexistente.
Precedentes que se Repetem
Este não é caso isolado. A crise hídrica de 2014-2015 em São Paulo seguiu roteiro similar. Alertas técnicos ignorados. Disputas políticas entre governos estadual e federal. Ação apenas quando reservatórios chegaram a 5% da capacidade.
O presidencialismo de coalizão opera sob lógica peculiar: decisões impopulares são adiadas até se tornarem inevitáveis. Nenhum partido da base quer arcar com desgaste de medidas preventivas. Todos querem crédito por soluções emergenciais.
No caso da baixa umidade no DF, medidas simples poderiam mitigar impactos:
- Suspensão de queimadas controladas em áreas próximas
- Restrição de atividades físicas em horários críticos
- Distribuição de soro fisiológico em postos de saúde
- Campanha massiva de hidratação para população vulnerável
Nenhuma exige investimento vultuoso. Todas dependem de coordenação entre secretarias e órgãos federais. Exatamente o que o sistema não entrega com eficiência.
Paralisia Estrutural
A ciência política identifica três características do presidencialismo de coalizão que explicam a paralisia diante de crises ambientais graduais:
Primeiro: incentivos eleitorais favorecem obras visíveis sobre políticas preventivas invisíveis. Um hospital inaugurado rende votos. Um sistema de monitoramento climático, não.
Segundo: a fragmentação partidária multiplica pontos de veto. Cada legenda na coalizão pode bloquear medidas que afetem suas bases eleitorais ou interesses setoriais.
Terceiro: a alta rotatividade ministerial impede acúmulo de expertise. Desde 2019, o Brasil teve quatro ministros do Meio Ambiente. Continuidade institucional vira ficção.
O alerta amarelo do Inmet expõe essa engrenagem travada. Técnicos cumprem protocolos. Emitem avisos. Atualizam boletins. Mas a tradução de dados meteorológicos em ação pública depende de articulações políticas que o sistema torna custosas demais.
O Que Está em Jogo
Para os 3 milhões de habitantes do DF, a baixa umidade significa desconforto respiratório, risco aumentado de incêndios, pressão sobre sistema de saúde. Para a classe política, é mais um episódio gerenciável até passar.
A diferença de percepção revela o abismo entre sociedade e estruturas de poder. O presidencialismo de coalizão foi desenhado para garantir governabilidade em país fragmentado. O custo oculto é a incapacidade de agir preventivamente diante de ameaças que não geram manchetes até virarem tragédias.
Enquanto a umidade segue caindo, a máquina política segue sua lógica própria. Alertas técnicos viram comunicados burocráticos. Riscos potenciais viram certezas adiadas. E o ciclo se repete, previsível como a própria estiagem.