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Santos na Sul-Americana expõe crise do futebol e reforma política

Santos na Sul-Americana expõe crise do futebol e reforma política
Foto: olhardigital.com.br

O Santos entra em campo nesta terça-feira contra o Universidad Central da Venezuela em situação que resume décadas de má gestão no futebol brasileiro. Um clube que já foi potência continental disputa agora um playoff da Copa Sul-Americana — a segunda divisão do futebol sul-americano.

A partida, marcada para as 19h15 (horário de Brasília), com transmissão pela Paramount+, coloca em evidência questões que transcendem o esporte: governança, prestação de contas e reformas estruturais.

Paralelos entre gramado e Congresso

A trajetória recente do Santos ilustra um padrão conhecido da política brasileira. Gestões sucessivas que priorizam interesses de curto prazo. Ausência de planejamento institucional. Resistência a mudanças estruturais mesmo diante de crises evidentes.

O clube que revelou Pelé e conquistou duas Libertadores passou por rebaixamento inédito em 2023. Retornou à elite em 2024, mas segue com dívidas estimadas em R$ 600 milhões. A reforma do estatuto avança a passos lentos. A profissionalização da gestão encontra resistência de grupos políticos internos.

Esse cenário espelha o debate sobre reforma política no Brasil. Ambos os contextos compartilham elementos centrais: estruturas de poder calcificadas, incentivos perversos à perpetuação do status quo e dificuldade de implementar mudanças mesmo quando a necessidade é consensual.

O custo institucional da inércia

A crise santista começou muito antes do rebaixamento. Campanhas eleitorais milionárias para presidência do clube. Gestões que priorizavam contratações de impacto midiático sobre sustentabilidade financeira. Ausência de controles rigorosos sobre gastos.

No plano nacional, a discussão sobre reforma política enfrenta impasse semelhante há décadas. Financiamento de campanhas, estrutura partidária, sistema eleitoral — todos reconhecem os problemas, poucos aceitam pagar o preço político das soluções.

A literatura de ciência política identifica esse padrão como "path dependence" — dependência de trajetória. Instituições criam seus próprios mecanismos de perpetuação. Reformá-las exige choques externos ou crises profundas.

Venezuela como espelho distorcido

O adversário desta terça carrega simbolismo adicional. A Universidad Central representa instituição de ensino em país que atravessa colapso institucional há mais de uma década. O regime venezuelano exemplifica como degradação das instituições políticas contamina todas as esferas da sociedade.

O futebol venezuelano, historicamente frágil, sofreu deterioração adicional com êxodo de talentos e investimentos. A Universidad Central, fundada em 1948, disputa torneios continentais em contexto de hiperinflação e crise humanitária.

Para Santos e Brasil, a comparação serve como alerta. Instituições não se degradam de uma vez. O processo é gradual, marcado por pequenas concessões, reformas adiadas, exceções que viram regra.

Reformas que não acontecem

O debate sobre reforma política no Brasil acumula propostas desde a redemocratização. Comissões especiais, PECs, audiências públicas — o processo legislativo avança sem chegar a mudanças substanciais.

Principais pontos de consenso técnico permanecem travados: fim das coligações proporcionais (aprovado apenas em 2017, para vigência a partir de 2020), cláusula de barreira mais rigorosa, redução do número de partidos, transparência em financiamento.

As resistências são previsíveis. Partidos pequenos temam extinção. Lideranças consolidadas resistem a regras que possam favorecer renovação. Cada grupo identifica na mudança mais riscos que oportunidades.

No Santos, padrão idêntico. A reforma estatutária esbarra em grupos que se beneficiam das regras atuais. Conselheiros vitalícios. Estrutura que permite campanhas políticas internas sem limites de gastos. Ausência de exigências de qualificação técnica para cargos de gestão.

Precedente de mudança forçada

O rebaixamento santista funcionou como choque externo. Forçou início de reformas que a crise financeira sozinha não havia provocado. O clube começou a profissionalizar áreas administrativas. Implementou controles mais rígidos. Discute mudanças estatutárias.

Esse precedente interessa à discussão política mais ampla. Reformas estruturais no Brasil frequentemente dependem de crises agudas. A Constituição de 1988 veio após ditadura militar. O Plano Real, após hiperinflação. A Lei de Responsabilidade Fiscal, após moratórias estaduais.

A questão que permanece: é possível reformar instituições antes que crises as forcem? O caso santista sugere que não. Mas também demonstra que, mesmo em crise, reformas enfrentam resistências e avançam lentamente.

O jogo continua

Para o torcedor que sintonizar a Paramount+ nesta terça, o interesse imediato é o resultado esportivo. Para analistas institucionais, o jogo representa capítulo de processo mais amplo.

O Santos escalará time misto, poupando titulares. A gestão atual precisa equilibrar ambição esportiva com realidade financeira — exercício que gestões anteriores ignoraram sistematicamente.

No plano nacional, o debate sobre reforma política segue em compasso de espera. Aguarda, talvez, seu próprio rebaixamento — uma crise suficientemente aguda para vencer as resistências de sempre.