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Rússia e China ensaiam guerra no Pacífico sob olhar japonês

Rússia e China ensaiam guerra no Pacífico sob olhar japonês
Foto: scmp.com

Navios de guerra russos e chineses realizaram no domingo exercícios militares conjuntos com tiros reais dentro da zona econômica exclusiva do Japão, no Oceano Pacífico. A manobra representa a demonstração mais explícita até agora da aliança militar entre Pequim e Moscou na região mais estratégica do planeta.

O ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, revelou o episódio durante discurso na Farnborough International Airshow, na Grã-Bretanha, na segunda-feira. Não foi acidente diplomático. Foi recado calculado.

O que significa zona econômica exclusiva

A ZEE japonesa estende-se até 200 milhas náuticas da costa. Nessa faixa, o Japão controla recursos naturais e atividade econômica, mas não pode impedir navegação ou sobrevoo estrangeiro. É área cinzenta do direito internacional marítimo — nem águas territoriais, nem mar aberto.

China e Rússia navegaram nessa ambiguidade jurídica deliberadamente. Exercícios militares com munição real nessa zona são legais, mas provocativos. É política externa feita com pólvora.

Precedente perigoso no tabuleiro asiático

Esta não é a primeira vez que Moscou e Pequim coordenam operações navais próximas ao arquipélago japonês. Mas é a primeira confirmação pública de exercícios com fogo real dentro da ZEE nipônica.

O precedente estabelece novo patamar de pressão militar sobre o Japão. Tóquio mantém aliança de defesa com os Estados Unidos desde 1951 e abriga bases americanas em seu território — fato que irrita tanto Pequim quanto Moscou.

A mensagem é clara: estamos aqui, estamos juntos, e não precisamos pedir licença.

Brasil, China e o contexto que importa

Para o Brasil, observador distante mas não desinteressado, o episódio carrega lições sobre a nova geometria do poder global. Brasília mantém relações comerciais estratégicas com Pequim — a China é nosso principal parceiro comercial desde 2009.

Mas o aprofundamento da aliança militar sino-russa complica o discurso brasileiro de equidistância pragmática. Não dá para separar o parceiro comercial do ator geopolítico. São a mesma entidade estatal.

O governo Lula tem navegado com cuidado entre Washington e Pequim, evitando alinhamentos automáticos. A realidade é que cada exercício militar conjunto no Pacífico empurra o mundo um passo além da ordem liberal do pós-Guerra Fria.

Por que isso acontece agora

A aproximação militar entre Rússia e China acelerou após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Isolada pelo Ocidente, Moscou voltou-se para Pequim em busca de legitimação e mercados.

A China, por sua vez, vê na parceria com a Rússia um contrapeso útil à contenção americana na Ásia. Não é aliança formal — é convergência tática de interesses contra hegemonia dos Estados Unidos.

O Japão está na linha de frente desse confronto estratégico. Disputas territoriais com a China pelas ilhas Senkaku (Diaoyu para Pequim) e com a Rússia pelas Curilas adicionam camadas de tensão histórica ao xadrez presente.

O que vem pela frente

Especialistas em defesa esperam aumento na frequência desses exercícios conjuntos. A normalização da presença militar sino-russa nas proximidades do Japão faz parte de estratégia de longo prazo para redefinir zonas de influência no Pacífico.

Para o Japão, a resposta tem sido rearmamento gradual e fortalecimento da aliança com Washington. Tóquio aumentou gastos militares para além do limite autoimposto de 1% do PIB — ruptura simbólica com pacifismo constitucional do pós-Segunda Guerra.

O mundo assiste à formação de blocos militares sem que ninguém declare formalmente sua existência. É Guerra Fria sem o nome, mas com a substância: exercícios, alianças, zonas de exclusão, recados cifrados em manobras navais.

O mar não tem memória, dizem os navegadores. Mas a história registra quando grandes frotas se movem em formação. E o Pacífico, que leva esse nome desde Magalhães, nunca foi tão pouco pacífico.