Ricardo Salles volta ao centro do debate em ano eleitoral
Ricardo Salles está de volta. O deputado federal pelo Novo-SP, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, será entrevistado nesta segunda-feira (20) pelo programa Frente a Frente, numa parceria entre Folha de S.Paulo e UOL. A escolha não é casual: Salles já se lançou pré-candidato ao Senado por São Paulo em 2026.
O movimento marca um ponto de inflexão na estratégia política do ex-ministro. Após anos cultivando uma base digital fervorosa e evitando o escrutínio da grande imprensa, Salles busca agora legitimidade além das redes sociais. A entrevista representa uma aposta de risco calculado.
O contexto paulista
São Paulo concentra o maior colégio eleitoral do país. A disputa pelo Senado em 2026 promete ser das mais acirradas, com nomes de peso ainda indefinidos. Salles tenta antecipar-se aos adversários construindo visibilidade early — uma tática que pode funcionar ou expô-lo prematuramente.
O deputado carrega consigo um passivo político considerável. Sua gestão no Ministério do Meio Ambiente (2019-2021) foi marcada por polêmicas envolvendo desmatamento, queimadas na Amazônia e suspeitas de esquemas ilegais de exportação de madeira. Investigações ainda correm na Justiça.
Mas Salles também conta com ativos. Possui uma militância organizada, recursos financeiros e inserção no campo da direita paulista. Seu discurso anti-regulação ambiental ressoa em setores do agronegócio e da indústria. A questão é quanto esse capital político resiste ao confronto direto com jornalistas.
A estratégia do Novo
O partido Novo vive um dilema. Fundado como legenda liberal-conservadora de perfil técnico, viu parte de seus quadros migrarem para o bolsonarismo raiz. Salles representa justamente essa ala — mais ideológica, menos institucional, disposta ao embate cultural.
A entrevista no Frente a Frente pode servir para testar a viabilidade dessa linha em território hostil. Programas do gênero exigem preparo, frieza e capacidade de resposta rápida. Salles terá que equilibrar a performance para sua base com a necessidade de ampliar o eleitorado.
Historicamente, pré-candidaturas antecipadas tendem a queimar cartuchos. Quanto mais exposição prematura, maior o desgaste até a eleição. Mas num cenário político fragmentado como o atual, visibilidade vale ouro. Salles aposta que os benefícios compensam os riscos.
Precedentes e paralelos
A trajetória de Salles guarda semelhanças com outros políticos que tentaram converter notoriedade negativa em votos. Casos como o de Tiririca, Russomanno e até Bolsonaro mostram que polarização pode ser eleitoralmente rentável.
A diferença é o timing. Salles não está numa eleição iminente — faltam meses. Cada entrevista, cada declaração, cada polêmica será arquivada e potencialmente usada contra ele. A exposição prolongada exige disciplina narrativa.
O programa Frente a Frente já recebeu figuras controversas. O formato — entrevista longa, com possibilidade de aprofundamento — favorece quem domina os temas e prejudica quem depende de soundbites. Salles precisará demonstrar substância além da retórica combativa.
O que está em jogo
Para o deputado, a entrevista é teste de fogo. Sair-se bem significa credenciar-se como competitivo além da bolha digital. Tropeçar pode antecipar o fim da candidatura antes mesmo de ela decolar oficialmente.
Para a Folha e o UOL, é uma aposta na relevância do jornalismo tradicional. Num ambiente saturado de lives e podcasts militantes, oferecer espaço qualificado de debate ainda tem valor — especialmente se gerar notícia.
Para o eleitor paulista, representa uma oportunidade rara de ver o pré-candidato sob pressão. Não há roteiro, não há edição generosa. É política ao vivo, com todos os riscos que isso implica.
Ricardo Salles escolheu o confronto. Agora veremos se ele sobrevive a ele.