Política

Ricardo Salles volta ao jogo: análise política da guinada do Novo

Ricardo Salles volta ao jogo: análise política da guinada do Novo
Foto: Metrópoles

Ricardo Salles está de volta. O ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro acaba de ser oficializado como candidato ao Senado Federal por São Paulo pelo partido Novo. A jogada marca um ponto de inflexão na trajetória da legenda — e revela muito sobre o xadrez da direita brasileira.

O que está em jogo

A candidatura de Salles não é um movimento isolado. É a consolidação de uma estratégia que o Novo vem desenhando desde 2022: abandonar a retórica de "terceira via" e abraçar definitivamente o bolsonarismo pragmático. O partido que nasceu pregando renovação política agora aposta num quadro com forte rejeição entre ambientalistas e setores progressistas, mas com capital eleitoral robusto entre eleitores de extrema-direita.

São Paulo, maior colégio eleitoral do país, se torna campo de batalha antecipado para 2026. A disputa do Novo não é apenas por cadeiras no Congresso. É por posicionamento no espectro conservador paulista — historicamente fragmentado entre PSDB, PL, Republicanos e outros partidos de centro-direita.

Precedente histórico

O Novo nasceu em 2011 com discurso liberal na economia e avesso ao fisiologismo. Prometia fazer política diferente. Nos primeiros anos, manteve distância calculada do bolsonarismo. Governadores como Romeu Zema, em Minas Gerais, equilibravam apoio ao governo federal com críticas pontuais.

Esse tempo acabou. A oficialização de Salles representa a vitória da ala que entendeu: no Brasil de hoje, liberalismo econômico sem aliança com o conservadorismo cultural não ganha eleição. É a mesma leitura que levou partidos como DEM e PSL a se fundirem no União Brasil — outro movimento de acomodação às novas forças políticas.

Quem é Ricardo Salles

Advogado de 49 anos, Salles comandou a pasta ambiental entre janeiro de 2019 e junho de 2021. Sua gestão ficou marcada por:

  • Aumento de 73% no desmatamento da Amazônia durante sua gestão
  • Conflitos públicos com servidores do Ibama e ICMBio
  • Polêmica sobre exportação ilegal de madeira que culminou em sua saída do ministério
  • Base eleitoral fiel entre ruralistas e defensores do agronegócio

Após deixar o governo, Salles foi eleito deputado federal em 2022 com mais de 200 mil votos. Desempenho que o credencia, aos olhos do Novo, como puxador de votos para a chapa proporcional.

A estratégia do Novo em São Paulo

Além de Salles para o Senado, o partido lançou chapa completa para Câmara Federal e Assembleia Legislativa. A aposta é em candidaturas que dialoguem com três perfis: empreendedores urbanos, classe média alta conservadora e evangélicos liberais na economia.

É uma tentativa de ocupar o espaço que o antigo PSDB abandonou. O tucano, que por décadas dominou a política paulista, vive crise terminal. O PL de Bolsonaro, embora forte nacionalmente, não se consolidou como força estadual em São Paulo. O Novo enxerga aí uma janela de oportunidade.

O risco é claro: associar-se a Salles pode afastar eleitores moderados que ainda viam o partido como alternativa civilizada à política tradicional. Mas a conta do Novo é outra. Em 2024, não há mais espaço eleitoral relevante no centro. A polarização obriga escolhas.

Contexto nacional

O lançamento das candidaturas em São Paulo acontece num momento específico. O governo Lula enfrenta desgaste crescente, especialmente na classe média. A oposição, no entanto, segue fragmentada. Bolsonaro está inelegível até 2030. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP) e Romeu Zema tentam construir pontes entre bolsonarismo e liberalismo.

Nesse cenário, o Novo aposta que 2026 será decidido por quem melhor representar a direita econômica sem os problemas jurídicos e de imagem de Bolsonaro. Salles no Senado é peça desse quebra-cabeça. Permite ao partido manter conexão com o eleitorado bolsonarista enquanto prepara lideranças estaduais para voos maiores.

O que vem pela frente

As eleições de 2024 são teste. Se Salles e a chapa do Novo conseguirem bom desempenho em São Paulo, o modelo se replicará nacionalmente. Se fracassarem, o partido terá queimado sua narrativa fundacional — e seu principal ativo político — sem garantir inserção efetiva no jogo de poder.

A direita brasileira está se reorganizando. O Novo escolheu seu lado. Ricardo Salles é tanto símbolo quanto instrumento dessa escolha. O eleitor paulista dirá, em outubro, se a aposta valeu a pena.