Política

Revolta contra apps: o novo front da economia política brasileira

Revolta contra apps: o novo front da economia política brasileira
Foto: Metrópoles

Um comerciante destruindo uma placa de aplicativo de delivery a marretadas. A cena, registrada em vídeo e rapidamente viralizada, não é apenas um desabafo individual. É sintoma de uma fratura econômica que começa a produzir efeitos políticos mensuráveis — e que coloca a coalizão presidencial diante de um dilema estrutural entre capital de plataforma e pequeno comércio.

O proprietário de um restaurante quebrou a placa do Keeta, aplicativo de entregas do grupo Meituan, após denunciar o que chamou de "descontos abusivos" impostos pela plataforma. O gesto concentra em poucos segundos uma tensão que atravessa milhares de estabelecimentos comerciais no país: a dependência de intermediários digitais que controlam acesso ao consumidor e definem, unilateralmente, as condições da transação.

O que está em jogo

Não se trata de episódio isolado. A revolta contra aplicativos de delivery expressa conflito distributivo clássico, mas operando sob arquitetura nova. As plataformas digitais criaram monopólios de acesso — quem não está no app, não existe para parcela crescente dos consumidores. Essa assimetria permite que as empresas imponham comissões que variam entre 20% e 35% do valor dos pedidos, percentuais que corroem margens já estreitas do setor alimentício.

A estrutura é conhecida: concentração de mercado em poucas plataformas, ausência de regulação efetiva, e base de comerciantes atomizada, sem poder de barganha. O resultado é extração de renda em escala industrial, com transferência de valor do comércio local para holdings tecnológicas, muitas delas com sede no exterior.

O dilema da coalizão presidencial

Aqui emerge o problema político. A base eleitoral que sustenta o governo Lula inclui justamente esse segmento: pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos, empreendedores de bairro. São eleitores que esperaram, durante a campanha, sinalizações de que haveria contenção do avanço predatório das big techs sobre a economia local.

Mas a coalizão presidencial também acomoda setores do capital financeiro e tecnológico, investidores em startups, fundos que apostam no modelo de plataformas. Regular agressivamente os aplicativos de delivery significaria confrontar esse segmento, romper consensos dentro da própria base de sustentação parlamentar.

O Ministério do Trabalho ensaiou movimentos regulatórios em 2023, especialmente sobre direitos de entregadores. Mas a pauta dos comerciantes — controle de comissões, transparência nos descontos, punição a práticas abusivas — permanece em limbo. Não há projeto de lei em tramitação avançada, não há norma do Cade sendo construída, não há pressão efetiva do Executivo.

Precedente histórico

O Brasil já viveu embates semelhantes. Nos anos 1990, a entrada das grandes redes de supermercados estrangeiras gerou reação do comércio varejista tradicional. A diferença é que, naquele momento, havia disputa física por espaço — localização, pontos comerciais, presença territorial. O pequeno comerciante podia competir com atendimento, proximidade, relação pessoal.

As plataformas digitais eliminaram essa possibilidade. O campo de disputa é o algoritmo, e nele não há concorrência possível. Quem define a ordenação dos restaurantes nos aplicativos, quem estabelece as regras de visibilidade, quem cria os mecanismos de promoção são as próprias plataformas. O comerciante vira refém de critérios opacos, modificáveis a qualquer momento, sem direito a recurso ou contestação.

Significado político

A destruição da placa do Keeta pode parecer ato menor. Mas é indício de acúmulo de ressentimento que, em algum momento, transborda para a esfera política. Comerciantes organizados em associações começam a pressionar vereadores, deputados estaduais, parlamentares federais. A pauta entra no circuito institucional.

O risco, para a coalizão presidencial, é que esse segmento migre para oposição ou se torne indiferente ao governo — nem apoio, nem mobilização. Em eleições municipais de 2024, isso pode ter efeito concreto: candidatos que incorporarem bandeiras anti-plataformas tendem a capturar esse eleitorado difuso, mas numeroso.

Além disso, há precedente internacional preocupante. Na Europa, a regulação de plataformas digitais avançou justamente quando pequenos comerciantes, agricultores e prestadores de serviços locais formaram coalizões de pressão. No Brasil, esse movimento ainda é incipiente. Mas episódios como o do restaurante contra o Keeta indicam que a insatisfação está madura.

O que vem pela frente

A questão central é: a coalizão presidencial terá disposição para enfrentar o lobby das plataformas? Até agora, a aposta governamental tem sido em mediação, diálogo, acordos setoriais. Mas o conflito distributivo não se resolve por consenso — alguém perde receita.

Se o governo optar por não agir, o tema será apropriado por outros atores políticos. A direita liberal pode incorporar discurso antimonopólio, algo que já ocorre nos Estados Unidos com figuras como Ron DeSantis. A esquerda, por sua vez, pode radicalizar a crítica e cobrar ruptura com modelo de plataformas.

A revolta de um comerciante contra uma placa de aplicativo não muda, sozinha, equações políticas. Mas sinaliza deslocamento em curso. E em política, quem não percebe os sinais a tempo, paga o preço nas urnas.