Reino Unido troca de premiê pela sétima vez em dez anos
Setenta e quatro por cento de rejeição. Este é o número que encerrou a carreira de Keir Starmer como primeiro-ministro britânico — a pior marca de popularidade registrada no Reino Unido em meio século.
Na segunda-feira (20), Andy Burnham tornou-se o sétimo ocupante do cargo em apenas dez anos. Uma rotatividade que faria inveja até à instabilidade política brasileira dos anos 1960.
A queda relâmpago de Starmer
A trajetória de Starmer representa um dos colapsos políticos mais acelerados da democracia britânica moderna. Em 2024, ele conduziu o Partido Trabalhista a uma vitória esmagadora nas eleições nacionais. Apenas 23 meses depois, renunciou sob pressão interna do próprio partido.
Dois fatores destruíram sua base de apoio. Primeiro, a inflação persistente corroeu o poder de compra da classe média britânica — justamente o eleitorado que devolveu os trabalhistas ao poder após anos de governo conservador. Segundo, o envolvimento indireto em investigações ligadas ao escândalo Epstein minou qualquer resquício de capital político.
A combinação é letal em qualquer democracia: crise econômica somada a escândalo de reputação.
Quem é o 'Rei do Norte'
Andy Burnham não surge do nada. Sua gestão à frente da prefeitura de Manchester construiu uma reputação sólida — especialmente entre trabalhadores das regiões industriais do norte inglês, historicamente esquecidas por Westminster.
O apelido 'Rei do Norte' não é casual. Reflete uma geografia política que define o Reino Unido contemporâneo: Londres e o sul próspero de um lado; as cidades industriais do norte, empobrecidas pela desindustrialização, de outro.
Burnham posiciona-se como representante desta Inglaterra esquecida. Promete uma agenda mais popular, com foco em redistribuição de recursos e investimento em infraestrutura nas regiões desindustrializadas.
O contexto de instabilidade crônica
Sete primeiros-ministros em dez anos não são acidente estatístico. São sintoma de fragmentação política profunda.
Desde o referendo do Brexit em 2016, o Reino Unido navega em águas turbulentas. O divórcio da União Europeia dividiu o país não apenas entre pró e contra, mas expôs fraturas regionais, geracionais e de classe que permanecem abertas.
Os conservadores queimaram cinco líderes tentando gerenciar as consequências do Brexit. Boris Johnson caiu por festas durante lockdown. Liz Truss durou 49 dias após colapsar a libra esterlina. Rishi Sunak não conseguiu reverter a maré anti-Tory.
Agora, os trabalhistas repetem o padrão de instabilidade que criticaram.
O desafio Burnham
O novo premiê enfrenta um tabuleiro complexo. A extrema-direita cresce nas urnas britânicas, capitalizando ansiedades sobre imigração e identidade nacional. O Partido Reform UK, liderado por figuras como Nigel Farage, avança em redutos tradicionalmente trabalhistas.
Burnham precisa equilibrar uma agenda economicamente progressista sem alienar eleitores culturalmente conservadores — a quadratura do círculo que define a social-democracia europeia neste século.
Sua origem no norte industrial pode ser trunfo. Mas Manchester não é a Grã-Bretanha. Nacionalizar uma base regional para governar um país polarizado exige habilidade política de alto nível.
Paralelos e lições
A instabilidade britânica oferece lições para outras democracias, incluindo o Brasil. Rotatividade excessiva de lideranças sinaliza incapacidade dos sistemas políticos de processar conflitos estruturais.
No caso britânico, o conflito não resolvido é o lugar do país no mundo pós-Brexit. No Brasil, são as tensões entre modelos de desenvolvimento e distribuição de renda.
Trocar líderes sem enfrentar problemas de fundo apenas transfere crises para o próximo ocupante do cargo. Burnham herda não apenas a cadeira de Starmer, mas toda uma década de questões acumuladas.
Resta saber se o 'Rei do Norte' consegue unificar seu reino dividido — ou se tornará apenas mais um nome na lista crescente de premiês que prometeram estabilidade e entregaram mais turbulência.