Recorde alemão expõe atraso do Brasil em infraestrutura elétrica
Rainer Zietlow acaba de completar 80 mil quilômetros ao volante de um Volkswagen ID.Buzz elétrico. Passou por 77 países desde julho de 2024. Agora aguarda a certificação do Guinness Book como autor da maior viagem em veículo elétrico da história.
O feito não é apenas uma curiosidade automotiva. É um teste de estresse geopolítico.
O que o recorde revela sobre política energética
A expedição atravessou o Brasil — país que ainda trata mobilidade elétrica como nicho de mercado, não como política de Estado. Enquanto a Europa acelera a eletrificação de frotas e a China domina a cadeia produtiva de baterias, Brasília patina entre incentivos fiscais tímidos e uma infraestrutura de recarga que mal cobre capitais.
Zietlow não é um excêntrico isolado. É sintoma de uma virada civilizacional que o Brasil observa da arquibancada.
Alemanha, Estados Unidos e China definiram a transição energética como prioridade estratégica. Não por ambientalismo ingênuo, mas por segurança energética e soberania industrial. Quem controla a tecnologia de baterias e eletrificação controla o século XXI.
Brasil entre o atraso e a oportunidade
O país tem vantagens comparativas óbvias: matriz elétrica limpa, reservas de lítio, capacidade industrial instalada. Falta vontade política coordenada.
O Congresso discute há anos um marco regulatório para veículos elétricos. A tributação permanece confusa. Estados competem por montadoras com isenções fragmentadas, sem visão nacional.
Enquanto isso, montadoras europeias e chinesas definem seus mapas de investimento. O Brasil aparece como mercado secundário, não como hub produtivo.
A infraestrutura como termômetro político
A viagem de Zietlow expõe a precariedade da rede de recarga brasileira. Estações concentradas no eixo Rio-São Paulo. Interior dependente de carregadores domésticos improvisados. Rodovias federais sem planejamento para eletrificação.
Compare com a Noruega, onde 90% dos carros novos vendidos são elétricos. Ou com a Califórnia, que baniu veículos a combustão a partir de 2035. Essas não são políticas ambientais — são políticas industriais.
O Brasil trata o tema como pauta de ONGs, não como segurança nacional.
O precedente Volkswagen
A escolha da VW não é acidental. A montadora alemã aposta na eletrificação como sobrevivência corporativa após o escândalo do dieselgate. O ID.Buzz é a versão elétrica da lendária Kombi — ícone da contracultura dos anos 1960, agora repaginado para a era da descarbonização.
A Volkswagen produz veículos no Brasil há 70 anos. Mas seus modelos elétricos mais avançados não chegam aqui. Por quê? Porque o mercado regulatório não justifica o risco.
Zietlow provou que a tecnologia funciona. Falta ao Brasil provar que está disposto a entrar no jogo.
Quem perde com a inação
A resposta é direta: a classe média brasileira e o parque industrial nacional.
Enquanto países centrais subsidiaram a transição, criaram empregos verdes e reduziram dependência de petróleo importado, o Brasil mantém uma frota obsoleta, cara de manter e poluente.
A janela de oportunidade se fecha. A China já domina 80% da produção global de baterias. A Europa consolidou padrões técnicos. Os EUA protegem seu mercado com subsídios bilionários.
O Brasil discute.
O simbolismo da Kombi elétrica
Há uma ironia histórica potente: a Kombi, símbolo da industrialização brasileira dos anos 1950, retorna eletrificada — mas como produto de importação inacessível.
É a metáfora perfeita do atraso optativo. O país que poderia liderar a transição energética na América Latina escolhe ser espectador.
Rainer Zietlow vai entrar para o Guinness. O Brasil vai entrar para a lista dos que deixaram passar o trem da história — outra vez.