Presidencialismo de coalizão cobra preço da próxima geração

Presidencialismo de coalizão cobra preço da próxima geração
Foto: redir.folha.com.br

O Brasil acumulou R$ 1,2 trilhão em despesas obrigatórias nos últimos cinco anos. Cada recém-nascido já herda uma dívida pública equivalente a R$ 47 mil. A conta não fecha hoje — e não fechará amanhã.

A frase "é preciso fazer o bolo crescer para depois dividir" voltou ao debate público como um fantasma dos anos 1970. Mas o jogo mudou. Não se trata mais de escolher entre crescimento ou distribuição. Trata-se de quem paga: nós ou nossos filhos.

A máquina de adiar decisões

O presidencialismo de coalizão brasileiro criou uma engrenagem perfeita para transferir custos intertemporais. Funciona assim: governos distribuem benefícios imediatos — aumento de funcionalismo, programas sociais, subsídios setoriais — enquanto empurram o financiamento para exercícios futuros.

A lógica é simples. Partidos da base governista exigem recursos para suas clientelas em troca de apoio parlamentar. O Executivo negocia emendas, cargos e liberações orçamentárias. O ciclo se repete a cada votação importante.

Ninguém vota contra o eleitor de hoje. Todos votam contra o contribuinte de 2035.

Anatomia do gasto irreversível

Despesas obrigatórias cresceram de 86% para 93% do orçamento federal em uma década. Restam 7% de margem discricionária para investimento, custeio e qualquer política nova.

O Congresso aprova. O Judiciário chancela. A sociedade aplaude cada nova conquista de direitos. Mas ninguém apresenta a fonte de financiamento sustentável.

  • Previdência: déficit estrutural de 4% do PIB
  • Funcionalismo: reajustes acima da inflação sem contrapartida produtiva
  • Vinculações constitucionais: 90% da receita comprometida antes de qualquer escolha
  • Subsídios creditícios: R$ 80 bilhões anuais em renúncias fiscais

Cada item individualmente parece razoável. No conjunto, formam uma camisa de força fiscal.

O paradoxo da democracia orçamentária

Democracias maduras desenvolvem instituições para conter a tirania da geração presente sobre as futuras. Regras fiscais. Tetos de gasto. Âncoras orçamentárias independentes.

O Brasil tentou. A LRF de 2000 estabeleceu limites. O teto de gastos de 2016 propôs travamento. O arcabouço fiscal de 2023 prometeu disciplina com flexibilidade.

Todas as regras foram contornadas, flexibilizadas ou simplesmente ignoradas quando a pressão política aumentou. O presidencialismo de coalizão devora suas próprias instituições de contenção.

"Não há almoço grátis, mas há eleição a cada dois anos. A conta sempre pode esperar até depois do próximo pleito."

Crescimento não resolve tudo

A aposta no crescimento econômico como solução automática ignora a aritmética básica. Com gastos obrigatórios crescendo 5% ao ano em termos reais e PIB avançando 2% a 2,5%, a trajetória é insustentável.

Mesmo em cenário otimista de crescimento acelerado, o estoque de dívida pública continuaria sua trajetória ascendente. A razão é estrutural: o denominador cresce mais devagar que o numerador.

País nenhum resolveu desequilíbrio fiscal estrutural apenas com expansão econômica. Todos precisaram fazer escolhas distributivas dolorosas.

Quem decide não paga

A geração que vota hoje tem entre 30 e 70 anos. Aproveitará os benefícios do gasto presente. Não arcará com o ajuste futuro.

A geração que pagará — nascidos após 2010 — não vota, não se organiza, não faz lobby. É a vítima silenciosa do sistema político atual.

Esse descompasso temporal entre decisão e consequência é o núcleo do problema. Em sistemas eleitorais de curto prazo, racionalidade individual produz irracionalidade coletiva intertemporal.

Precedentes e paralelos

Grécia, Argentina, Líbano: países que adiaram escolhas até perderem a capacidade de escolher. Quando mercados impõem disciplina, o custo social multiplica-se por dez.

O Brasil ainda tem tempo e credibilidade. Mas a janela se fecha. Cada ano de adiamento reduz graus de liberdade e aumenta o sacrifício necessário.

A conta do futuro já está sendo escrita. Resta decidir se será paga de forma planejada ou caótica, negociada ou imposta.

O presidencialismo de coalizão, como desenhado, não tem incentivos para fazer essa escolha. Apenas para adiá-la.