Política

Quando a polêmica vende: Infantino e a reforma política no Brasil

Quando a polêmica vende: Infantino e a reforma política no Brasil
Foto: Poder360

Gianni Infantino ganhou 974 mil seguidores no Instagram durante a Copa de 2026. Um crescimento de 22,4% em plenas semanas marcadas por críticas ferozes à gestão da Fifa.

O paradoxo não é novo. Quanto mais atacado, mais visível. Quanto mais visível, mais forte.

Levantamento da Bites, a pedido do Poder360, expõe uma dinâmica que transcende o futebol. Ela dialoga diretamente com o impasse central da reforma política brasileira: a incapacidade das instituições de conter figuras que transformam escândalo em capital político.

A economia da atenção recompensa o controverso

Infantino não é político eleito. Mas opera como tal. Sua estratégia comunica diretamente com massas, bypassa mediadores tradicionais, e converte crítica em engajamento.

A métrica é cruel: não importa se o comentário é positivo ou negativo. O algoritmo premia volume. E volume gera autoridade percebida.

No Brasil, esse fenômeno encontra terreno fértil. Lideranças políticas aprenderam há tempos que escândalo não mata carreira. Ao contrário: alimenta bases radicalizadas, amplia presença midiática, garante palanque permanente.

A reforma política discutida no Congresso tenta regular financiamento, ampliar transparência, reduzir custos de campanha. Mas ignora o elefante na sala: candidatos não precisam mais de dinheiro para ter audiência. Precisam de polêmica.

Precedentes brasileiros: da CPI ao estrelato

O caso Infantino espelha trajetórias nacionais. Parlamentares investigados em CPIs frequentemente emergem fortalecidos. Ex-gestores alvos de operações judiciais constroem carreiras na oposição institucional.

O mecanismo é simples: crítica institucional gera cobertura. Cobertura gera reconhecimento de nome. Reconhecimento vira voto.

Dados eleitorais recentes confirmam: candidatos com maior rejeição também apresentam maior engajamento digital. A polarização não pune. Premia.

Para quem defende reforma política focada em governabilidade e estabilidade institucional, o fenômeno Infantino é alerta vermelho. As regras do jogo mudaram. O eleitorado não consome política como consumia há dez anos.

A reforma que não enfrenta a era digital

Propostas em tramitação no Congresso miram estruturas do século XX. Regulam TV, rádio, santinhos. Mas redes sociais — onde batalhas de narrativa realmente acontecem — permanecem zona cinzenta.

Infantino prova que instituições tradicionais perderam monopólio da legitimidade. Federações esportivas, partidos políticos, mesmo veículos de imprensa: todos competem em pé de igualdade com influenciadores, outsiders, populistas digitais.

A questão para o Brasil não é apenas ética ou transparência. É operacional: como desenhar instituições resilientes quando reputação negativa virou ativo?

Exemplos internacionais mostram caminhos. Regulação de impulsionamento pago. Obrigatoriedade de identificação de conteúdo político. Limites para bots e contas inautênticas.

Mas o debate brasileiro permanece travado em agendas pré-digitais. Cláusula de barreira. Fundo partidário. Coligações. Temas relevantes, porém insuficientes para enfrentar a disrupção algorítmica.

O que Infantino ensina sobre poder contemporâneo

Seu crescimento sob fogo cruzado revela verdade desconfortável: instituições de accountability funcionam cada vez menos como freios. Funcionam como amplificadores.

Investigações viram manchetes. Manchetes viram engajamento. Engajamento vira influência. Influência vira poder.

Para reformadores políticos brasileiros, a lição é urgente. Não basta regular dinheiro. É preciso regular atenção.

Enquanto o Congresso discute tetos de gastos e prazos de campanha, líderes populistas dominam feeds, constroem exércitos digitais, convertem indignação em mobilização.

A reforma política que o Brasil precisa não está apenas em Brasília. Está na compreensão de que democracia representativa compete, hoje, com democracia direta digital — onde cada like é plebiscito, cada share é voto de confiança.

Infantino não será julgado por conselhos da Fifa. Será julgado por seus 5,3 milhões de seguidores. E nesse tribunal, polêmica é fiança, não condenação.