A Praça Sete vira Times Square: urbanismo ou mercado?
A Praça Sete de Setembro, coração histórico de Belo Horizonte, acaba de ganhar autorização para se transformar em versão mineira da Times Square. O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município aprovou parecer favorável à instalação de painéis de LED gigantes no local.
A decisão não é apenas sobre publicidade. É sobre qual cidade queremos.
O que está em jogo
Trata-se de um precedente urbanístico relevante. A Praça Sete não é qualquer esquina. Inaugurada em 1924, marca o encontro das duas principais avenidas da capital planejada: Afonso Pena e Amazonas. Ali nasceu o centro de BH.
Agora, o espaço que testemunhou um século de história política mineira — de comícios a manifestações — poderá receber estruturas luminosas comerciais de grande porte. O projeto ainda depende de aprovação da Secretaria Municipal de Política Urbana e outros órgãos técnicos.
Mas a autorização do Conselho do Patrimônio já sinaliza: a balança pende para o mercado.
O modelo Times Square
A comparação com Times Square não é casual. É o paradigma global de como o capital publicitário pode reconfigurar um território urbano. Nova York transformou um cruzamento em marca mundial. Belo Horizonte quer replicar a fórmula.
Há diferenças cruciais. Times Square não era patrimônio histórico protegido quando virou vitrine luminosa. A Praça Sete, ao contrário, integra o conjunto urbanístico tombado do centro de BH.
A tensão é clara: preservação histórica versus dinamização comercial.
Quem ganha, quem perde
Os defensores do projeto argumentam que painéis de LED modernizam a paisagem urbana, atraem investimentos e revitalizam o centro. Citam exemplos de Tóquio, Londres, São Paulo. Cidades globais têm suas vitrines luminosas.
Os críticos veem commodificação do espaço público. A lógica é simples: transformar marco histórico em suporte publicitário privatiza simbolicamente o que deveria permanecer comum. O cidadão vira espectador de mensagens comerciais em local que pertence à memória coletiva.
Urbanistas alertam para poluição visual e descaracterização. Historiadores lembram que patrimônio não é recurso disponível para exploração econômica irrestrita. É herança a ser transmitida.
O contexto político mais amplo
A decisão ocorre em momento específico. Centros históricos brasileiros enfrentam esvaziamento há décadas. O comércio migrou para shopping centers. Escritórios, para bairros planejados. Ficou a degradação.
Prefeituras buscam soluções. Muitas apostam em flexibilização de regras urbanísticas para atrair capital privado. A narrativa é conhecida: sem investimento, não há recuperação. Para ter investimento, é preciso ceder.
O problema dessa equação é o que fica pelo caminho. Patrimônio cultural não se reconstrói. Uma vez alterada a paisagem, a mudança é irreversível.
Precedente perigoso
A autorização na Praça Sete pode abrir caminho para pedidos semelhantes em outros pontos históricos. Se o marco zero de BH pode receber painéis publicitários gigantes, por que não outras praças tombadas?
É a velha estratégia do salame: corta-se fatia por fatia. Cada decisão isolada parece razoável. O conjunto compromete o todo.
Conselhos de patrimônio existem justamente para resistir a pressões pontuais em nome de interesse público de longo prazo. Quando cedem, o sistema de proteção cultural perde sentido.
O que vem pela frente
O projeto ainda tramita. Outros órgãos precisam se manifestar. Há possibilidade de judicialização — associações de preservação histórica costumam recorrer à Justiça em casos assim.
Mas a sinalização política já foi dada. O Conselho do Patrimônio, instância que deveria blindar bens culturais, autorizou intervenção comercial relevante em espaço protegido.
Belo Horizonte terá sua Times Square. Resta saber se a cidade estava disposta a pagar o preço: trocar memória por luminosidade, história por marketing, patrimônio público por vitrine privada.
A Praça Sete continuará sendo o centro de BH. Mas será outro centro. E essa transformação, ao contrário dos painéis de LED, não tem botão de desligar.