Política

PGR mira senador que processou Gilmar: reforma política em jogo

PGR mira senador que processou Gilmar: reforma política em jogo
Foto: Metrópoles

A Procuradoria-Geral da República decidiu investigar o senador Eduardo Girão (Novo-CE) por suposto abuso de poder político. O motivo: ele processou o ministro Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal. O parecer da PGR chegou ao STF esta semana.

Girão foi relator da CPI do Crime Organizado no Senado. Durante os trabalhos, entrou com ação contra Gilmar. Agora, a procuradoria vê nisso uma tentativa de intimidação do Judiciário.

O senador reagiu. Chamou a decisão da PGR de "tentativa de intimidação" contra ele próprio.

O conflito entre Legislativo e Judiciário

O caso coloca frente a frente dois poderes da República. De um lado, um parlamentar eleito que investiga o crime organizado. De outro, um ministro vitalício do tribunal máximo do país.

A tensão não é nova. Nos últimos anos, o STF expandiu sua atuação. Passou a investigar, julgar e punir com mais frequência. Parlamentares reclamam de invasão de competências. Ministros dizem defender a democracia.

Eduardo Girão pertence ao campo político que critica o ativismo judicial. O Novo defende menos poder concentrado em Brasília. Gilmar Mendes representa a ala do Supremo mais confortável com intervenções amplas.

A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, tem sido vista como alinhada ao STF. Paulo Gonet, atual procurador-geral, foi indicado pelo presidente Lula após consulta informal aos ministros da Corte.

Precedente perigoso para a reforma política

O episódio ocorre em momento delicado. O Congresso discute reforma política há décadas. Nunca avança. Uma das razões: o STF barra ou altera projetos aprovados pelos parlamentares.

Em 2015, o Supremo derrubou o financiamento empresarial de campanhas. Em 2017, acabou com a prisão após condenação em segunda instância. Em 2019, criminalizou a homofobia por interpretação própria. Decisões polêmicas, sempre dividindo juristas.

Agora, investigar um senador por processar um ministro cria precedente arriscado. Se confirmado, o recado é claro: parlamentar que questiona o STF na Justiça pode responder por abuso de poder.

Para analistas, isso esfria qualquer tentativa real de reforma política no Brasil. Como mudar as regras do jogo se um dos jogadores pune quem propõe mudanças?

O contexto da CPI do Crime

A CPI relatada por Girão investigou organizações criminosas. Ouviu testemunhas sobre lavagem de dinheiro, corrupção e conexões políticas. Entre os temas, a atuação de escritórios de advocacia ligados a ministros.

Foi nesse contexto que Girão acionou Gilmar Mendes. Alegou conflito de interesses e decisões favoráveis a clientes de parentes do ministro. Gilmar sempre negou irregularidades.

A ação do senador não prosperou no STF. Mas também não foi arquivada por falta de fundamento. Ficou parada, como tantas outras.

Agora, a PGR transforma o autor da ação em investigado. A pergunta que fica: até que ponto parlamentares podem usar suas prerrogativas sem serem punidos pelo Judiciário?

Reforma política travada há 30 anos

O Brasil tenta reformar seu sistema político desde a redemocratização. Financiamento de campanha, fidelidade partidária, cláusula de barreira, voto distrital. Tudo já foi debatido. Pouco mudou.

O STF participou ativamente desse processo. Ora validando mudanças, ora barrando, ora criando regras próprias. O resultado é um sistema híbrido, confuso, alterado mais por decisões judiciais que por leis.

Especialistas divergem. Uns veem o Supremo como guardião necessário contra abusos do Congresso. Outros enxergam usurpação de competências legislativas.

O caso Girão versus Gilmar adiciona nova camada a esse debate. Mostra que a relação entre poderes no Brasil permanece tensa, instável e carente de regras claras.

A reforma política que o país precisa talvez exija antes uma reforma nas relações entre Legislativo e Judiciário. Sem isso, cada tentativa de mudança esbarra em conflitos institucionais como este.

Por ora, o parecer da PGR aguarda decisão no STF. Eduardo Girão segue como senador e como investigado. Gilmar Mendes continua julgando. E a reforma política permanece no papel.