Política

Peru registra 6 mortos em terremotos e expõe fragilidade

Seis pessoas morreram. Vinte e uma ficaram feridas. Dois terremotos — de magnitudes 5,1 e 3,7 — atingiram o Peru no sábado, 18 de julho. O saldo não é apenas numérico. É político.

A tragédia peruana expõe uma realidade que transcende fronteiras: Estados andinos seguem reféns de sua própria geografia sem conseguir traduzir conhecimento sísmico em proteção civil efetiva.

O que os números revelam

Peru situa-se no Cinturão de Fogo do Pacífico, região responsável por 90% dos terremotos mundiais. O país registra tremores quase diariamente. Mas quantidade não gerou qualidade institucional.

A diferença entre um tremor de magnitude 5 matar seis pessoas no Peru ou zero no Japão não está na geologia. Está na engenharia civil, no ordenamento urbano, na fiscalização de obras. Está, em suma, na capacidade estatal.

Chile e Japão — países igualmente sísmicos — transformaram vulnerabilidade geográfica em excelência construtiva. Construíram códigos de edificação rígidos. Investiram em sistemas de alerta precoce. Treinaram populações.

A política por trás da tragédia

O Peru vive crise política crônica desde 2016. Seis presidentes em sete anos. Congresso dissolvido. Impeachments em série. Instabilidade institucional cobra seu preço não apenas em escândalos, mas em vidas.

Políticas públicas de prevenção exigem continuidade administrativa. Exigem orçamento plurianual. Exigem agências técnicas blindadas de interferência política. Exigem, em outras palavras, aquilo que o Peru não consegue oferecer.

A tragédia de sábado não foi natural. Foi o encontro entre uma placa tectônica e décadas de negligência institucional.

O precedente regional

América Latina concentra 9% dos terremotos globais, mas responde por percentual desproporcional de vítimas. A equação é simples: mesma intensidade sísmica, infraestrutura inferior, resultado letal.

Equador perdeu 673 pessoas em terremoto de magnitude 7,8 em 2016. Haiti registrou 230 mil mortos em tremor de magnitude 7,0 em 2010. Não foi a natureza que matou. Foi a precariedade construtiva, a ocupação irregular de encostas, a ausência de planejamento.

Brasil não integra zona sísmica ativa, mas enfrenta desafios análogos. Deslizamentos de terra, enchentes urbanas, colapso de barragens — todas compartilham a mesma raiz: falha estatal em converter conhecimento técnico em proteção efetiva.

O custo da imprevidência

Peru investe menos de 0,3% do PIB em prevenção de desastres. Gasta múltiplos dessa cifra em reconstrução emergencial. A conta não fecha — nem financeiramente, nem eticamente.

Cada sol peruano não investido em fiscalização de obras se converte em múltiplos soles gastos em resgates, hospitais, indenizações. Governos escolhem pagar mais para proteger menos.

A lógica é perversa, mas politicamente compreensível: prevenção não inaugura placa, não gera foto, não mobiliza eleitor. Tragédia sim. O ciclo se retroalimenta.

Lições para Brasília

Brasil observa terremotos andinos como quem assiste documentário — distante, curioso, descomprometido. Erro estratégico.

As mesmas deficiências que transformam tremor peruano em tragédia humana operam aqui em versões adaptadas: obras sem fiscalização, ocupação irregular naturalizada, agências técnicas sucateadas, planejamento urbano subordinado a interesses imobiliários.

Mariana, Brumadinho, Petrópolis — nomenclaturas diferentes para mesmo fenômeno: Estados que conhecem riscos, mapeiam vulnerabilidades, mas não convertem diagnóstico em ação preventiva.

As seis mortes peruanas são espelho incômodo. Revelam não apenas fragilidade andina, mas fratura estrutural que perpassa todo o subcontinente: a incapacidade crônica de transformar conhecimento em proteção, previsão em prevenção, alerta em política pública.

Terremotos não matam. Prédios mal construídos sim. E prédios mal construídos são, invariavelmente, escolhas políticas.