Feminicídio em Goiás expõe falência da proteção estatal
Uma professora foi executada a tiros em frente a uma igreja em Bom Jesus de Goiás, na segunda-feira (21). O marido é o principal suspeito. Testemunhas relataram que ele chegou de motocicleta, abordou a vítima e disparou.
O crime ocorreu em plena luz do dia, próximo a um dos símbolos mais tradicionais de refúgio comunitário. A professora estava em espaço público, cercada de potenciais testemunhas. Nada disso a protegeu.
O padrão que se repete
Este feminicídio replica uma estrutura observada em centenas de casos similares no interior brasileiro. O agressor conhece a rotina da vítima. Age com determinação. A execução é rápida e pública.
A proximidade com instituições religiosas não é acidental. Muitas mulheres buscam esses espaços como último recurso de proteção comunitária quando as estruturas estatais falham. A escolha do local pelo agressor carrega uma mensagem: não há refúgio.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que parceiros ou ex-parceiros respondem por 81% dos feminicídios no Brasil. A maioria ocorre na residência da vítima ou em locais conhecidos.
A geografia da violência
Bom Jesus de Goiás, município de 23 mil habitantes, replica em escala menor os desafios das grandes metrópoles. Cidades do interior brasileiro enfrentam déficit estrutural em medidas protetivas.
Delegacias especializadas concentram-se nas capitais. Casas-abrigo são raras. O tempo de resposta policial é maior. As redes de apoio são mais frágeis.
O fenômeno não é isolado. É sistêmico. A violência doméstica nas cidades pequenas opera sob maior invisibilidade. O controle social informal frequentemente favorece o agressor.
As falhas institucionais
A Lei Maria da Penha completou 18 anos em 2024. Os avanços legislativos são inegáveis. A aplicação prática permanece problemática.
Medidas protetivas são concedidas, mas a fiscalização é precária. Tornozeleiras eletrônicas faltam ou não funcionam. O monitoramento depende de estruturas policiais já sobrecarregadas.
A professora morta em Goiás se junta a uma estatística que envergonha o país. Em 2023, foram registrados 1.463 feminicídios no Brasil — quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero.
O contexto político
A segurança pública permanece como um dos principais desafios políticos brasileiros rumo a 2026. A violência contra a mulher é componente central desse debate.
Governadores estaduais enfrentam pressão crescente por resultados. A descentralização das políticas de proteção às mulheres gera disparidades regionais profundas.
O tema atravessa espectros ideológicos. Conservadores enfatizam punição. Progressistas destacam prevenção. A síntese eficaz continua ausente.
A geopolítica doméstica da segurança pública se complexifica. Estados com melhores indicadores de proteção às mulheres atraem investimentos e talentos. A violência de gênero se torna fator de competitividade regional.
Precedentes históricos
O Brasil possui tradição de legislar após comoção nacional. A Lei Maria da Penha surgiu após décadas de pressão internacional. A Lei do Feminicídio veio em 2015, após casos emblemáticos.
Cada avanço legal foi conquistado sobre pilhas de corpos. O padrão se repete: crime bárbaro, comoção pública, resposta legislativa, implementação deficiente.
O desafio não é mais normativo. É operacional. As leis existem. Os recursos não acompanham. A vontade política oscila conforme os ciclos eleitorais.
O que vem depois
O caso de Bom Jesus de Goiás terá o desfecho previsível. Investigação, prisão provável, processo judicial. Talvez condenação. Enquanto isso, outras professoras, enfermeiras, comerciantes serão mortas por parceiros ou ex-parceiros.
A repetição dessas tragédias expõe uma verdade incômoda: o Estado brasileiro ainda não desenvolveu capacidade efetiva de proteger mulheres em risco. A estrutura existe no papel. Falha na prática.
Para 2026, candidatos a cargos executivos precisarão apresentar mais que promessas. O eleitorado feminino, majoritário, cobra soluções concretas. A violência de gênero deixou de ser questão periférica. Tornou-se central no debate sobre que país queremos ser.