PDT abandona Ciro e volta ao ninho petista após duas derrotas
O PDT formalizou nesta semana o que já se desenhava nos bastidores desde o segundo turno de 2022: o retorno ao colo petista. Em convenção nacional realizada com a presença do presidente Lula, o partido oficializou apoio à reeleição ainda no primeiro turno, encerrando um ciclo de duas eleições presidenciais com candidatura própria sob a liderança de Ciro Gomes.
O movimento não é apenas simbólico. Representa a admissão de derrota de um projeto que nasceu com Leonel Brizola nos anos 1980 e prometia oferecer ao país uma alternativa trabalhista fora da órbita petista. Depois de amargar 3% em 2018 e 3% em 2022, o PDT reconhece o óbvio: sozinho, não decola.
O fim do ciclo cirista
Ciro Gomes construiu sua trajetória política recente em oposição explícita ao lulismo. Criticou a gestão econômica, a política de alianças, o que chamava de "populismo irresponsável". Rompeu de forma estrepitosa em 2022, quando se recusou a apoiar Lula no segundo turno contra Bolsonaro.
Agora, seu partido faz o caminho inverso. Sem Ciro no comando — afastado após as derrotas sucessivas —, a legenda opta pela sobrevivência institucional. A lógica é simples: fora do governo, o PDT vira nanismo político. Dentro, garante ministérios, cargos, emendas e espaço no horário eleitoral.
A decisão foi tomada pela nova geração pedetista, liderada por nomes como André Figueiredo e Carlos Lupi. Para eles, o pragmatismo vence a ideologia. Ou o que restou dela.
Precedente histórico: os trabalhistas sempre voltam
Este não é o primeiro retorno do PDT ao PT. Entre 2003 e 2016, o partido integrou todos os governos petistas, ocupando ministérios estratégicos como Trabalho e Integração Nacional. A ruptura de 2018 foi apresentada como definitiva. Durou oito anos.
O padrão se repete desde a redemocratização. Partidos de centro-esquerda que tentam construir espaço próprio acabam absorvidos pela gravitação petista. Aconteceu com PSB, PCdoB, PV. Agora, novamente com o PDT.
A diferença é que desta vez o retorno ocorre num momento de fragilidade eleitoral do próprio PT. Lula venceu em 2022 por margem mínima. Sua aprovação oscila. A direita se reorganiza. Neste contexto, o apoio pedetista não é favor — é necessidade mútua.
O que isso significa para 2026
A aliança antecipa o desenho da eleição presidencial. Lula terá ao seu lado o bloco tradicional da esquerda, reconstituído após as fissuras de 2022. Do outro lado, a direita ainda busca unidade entre bolsonarismo e tucanos.
Para o PDT, o cálculo é eleitoral. O partido perdeu espaço em prefeituras, governos estaduais e no Congresso. A associação com Lula pode reverter a sangria de quadros que migraram para PT, PSB e até PSD nos últimos anos.
O risco é desaparecer por completo, diluído na identidade petista. Sem projeto próprio, sem liderança nacional forte, o PDT se torna mais um satélite na constelação lulista. Funcional, mas inexpressivo.
A derrota do trabalhismo autônomo
Há uma leitura mais profunda neste episódio. O PDT foi fundado como herdeiro do trabalhismo getulista e brizolista. Prometia encarnar uma esquerda nacionalista, desenvolvimentista, distinta do marxismo cultural que seus críticos atribuíam ao PT.
Essa distinção se perdeu ao longo do tempo. As diferenças programáticas se tornaram irrelevantes. O que restou foi disputa por espaço de poder. E nessa disputa, o PT sempre levou vantagem — estrutura maior, capilaridade superior, máquina mais oleada.
O retorno do PDT ao PT, portanto, não é apenas movimento tático. É reconhecimento de que a esquerda brasileira não comporta dois projetos nacionais competitivos. Um absorve o outro. Sempre foi assim.
Resta saber se, desta vez, o casamento será definitivo ou se em 2030 testemunharemos novo ciclo de rompimento e retorno. A história sugere que sim. Partidos políticos brasileiros têm memória curta e pragmatismo longo.