Política

PCB lança historiador para SP e desafia lógica da coalizão

PCB lança historiador para SP e desafia lógica da coalizão
Foto: Metrópoles

O Partido Comunista Brasileiro lançou no sábado (1º/8) o historiador Carlos Machado como candidato ao governo de São Paulo. A convenção na capital paulista confirmou Felipe de Oliveira Queiroz como vice na chapa. É a primeira vez em décadas que o PCB concorre sozinho ao Palácio dos Bandeirantes.

A decisão marca uma ruptura deliberada com a arquitetura política que governa o Brasil desde 1988. Enquanto todos os grandes partidos negociam alianças, tempo de TV e divisão de ministérios, o PCB aposta na contramão: candidatura isolada, sem coligações, sem concessões programáticas.

O significado da estratégia solitária

A candidatura de Machado não busca vitória eleitoral imediata. Busca visibilidade ideológica. O PCB quer demarcar espaço à esquerda do PT num momento em que o petismo administra um governo de ampla coalizão — incluindo partidos de centro e centro-direita.

Para o eleitor paulista, significa uma opção fora do espectro tradicional. Para o sistema político, representa crítica viva ao presidencialismo de coalizão que transformou eleições em exercícios de engenharia de alianças.

O precedente remete às eleições de 1989, quando o PCB ainda disputava protagonismo na esquerda brasileira. Depois, o partido praticamente desapareceu do radar eleitoral, engolido pela ascensão petista e pela fragmentação comunista.

Quem é Carlos Machado

Historiador de formação, Machado representa a tentativa do PCB de qualificar seu discurso. Não é sindicalista. Não vem do movimento social tradicional. É um intelectual orgânico no sentido clássico — aquele que teoriza a revolução enquanto a organiza.

A escolha de um acadêmico reflete estratégia de comunicação. O PCB quer dialogar com setores universitários, com a juventude radicalizada pós-2013, com quem rejeita a moderação programática do PT no governo Lula III.

A armadilha do isolamento

O presidencialismo de coalizão brasileiro funciona como barreira de entrada. Partidos pequenos sem alianças não alcançam tempo de TV relevante. Não acessam fundo eleitoral robusto. Não constroem viabilidade nas pesquisas.

O PCB sabe disso. E aceita o custo. A campanha funcionará como palanque ideológico, não como máquina de conquistar votos. É propaganda, no sentido leninista do termo — educação política das massas através da agitação eleitoral.

Mas há risco. Isolamento pode significar irrelevância absoluta. Sem penetração midiática, sem capilaridade territorial, a candidatura vira nota de rodapé. O eleitor comum sequer saberá que existe.

O contexto paulista

São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Governar o estado significa controlar máquina administrativa gigantesca, orçamento de país médio, influência sobre dezenas de prefeituras.

Historicamente, o PCB nunca teve força em São Paulo. O estado sempre pendeu entre PSDB e PT nas últimas três décadas. Partidos menores de esquerda — PSOL, PSTU, PCO — nunca ultrapassaram dígito único nas urnas.

Machado enfrentará esse histórico adverso. Sua candidatura provavelmente terminará com menos de 1% dos votos válidos. Mas o PCB não mede sucesso em porcentagem. Mede em militantes recrutados, em discurso propagado, em contradições expostas.

Coalizão como sistema

O modelo brasileiro de presidencialismo de coalizão nasceu da necessidade. Presidentes eleitos precisam montar maiorias no Congresso para governar. Montam essas maiorias distribuindo ministérios, cargos, emendas, obras.

O sistema funciona. Garante governabilidade. Mas produz efeito colateral: diluição programática. Partidos de esquerda governam com partidos de direita. Programas eleitorais viram cartas de intenção genéricas.

É contra essa diluição que o PCB se insurge. A candidatura de Machado é protesto — protesto contra a coalizão como método, contra o pragmatismo como ideologia, contra a negociação permanente como horizonte político.

Se vai funcionar eleitoralmente, pouco importa. Já funcionou simbolicamente. O PCB voltou ao noticiário. E isso, para um partido comunista em 2024, já é vitória considerável.