Política

Ortega encerra ciclo eleitoral na Nicarágua e consolida regime

Ortega encerra ciclo eleitoral na Nicarágua e consolida regime
Foto: Metrópoles

Daniel Ortega acaba de anunciar o que analistas de regimes autoritários já previam: a Nicarágua não realizará mais eleições competitivas. O presidente sandinista, no poder desde 2007, declarou publicamente que o país não "voltará às urnas" para evitar o retorno da oposição, qualificada por ele como "golpista".

A declaração representa o ponto final em um processo de fechamento político que se acelerou desde 2018, quando protestos populares foram violentamente reprimidos. Desde então, Ortega prendeu dezenas de opositores, fechou centenas de ONGs e expulsou críticos do país.

Presidencialismo sem coalizão, poder sem freios

O que ocorre na Nicarágua é a transformação de um presidencialismo formalmente democrático em autocracia declarada. Diferente de sistemas que operam com coalizão e negociação entre forças políticas, Ortega eliminou qualquer espaço para barganha institucional.

O modelo nicaraguense atual prescinde de alianças porque prescinde de competição. Não há coalizão quando não há adversários reconhecidos como legítimos. O Congresso é dominado pela Frente Sandinista. O judiciário responde ao Executivo. A esposa de Ortega, Rosario Murillo, é vice-presidente.

Trata-se de um presidencialismo de partido único disfarçado de multipartidarismo. As siglas que existem no parlamento são satélites, não partidos com agenda própria.

O precedente regional e seus ecos

A decisão de Ortega não é isolada na América Latina. Ela dialoga diretamente com o fechamento político em curso na Venezuela, onde Nicolás Maduro governa sem reconhecimento de parte da comunidade internacional, e com as tensões institucionais vividas recentemente em El Salvador, onde Nayib Bukele reformou a Constituição para permitir reeleição.

Mas a Nicarágua leva o modelo ao extremo. Ortega não busca sequer a legitimidade formal de eleições controladas. Ele simplesmente anuncia que elas não ocorrerão. É o reconhecimento público de que o regime não precisa mais simular democracia.

Historicamente, a Nicarágua viveu uma das experiências revolucionárias mais importantes da Guerra Fria. Ortega liderou a derrubada da ditadura somozista em 1979 e governou até 1990, quando perdeu eleições. Voltou ao poder em 2007 e, desde então, reconcentrou controle político de forma progressiva.

Novas leis, velha estratégia

Junto ao anúncio sobre eleições, Ortega revelou a criação de novas leis contra opositores. Embora os detalhes não tenham sido divulgados, o padrão é conhecido: legislação que criminaliza dissidência sob rótulos como "traição à pátria", "conspiração" ou "terrorismo".

Essas leis cumprem dupla função. Primeiro, blindam juridicamente o regime contra contestação interna. Segundo, criam narrativa de ameaça externa e interna que justifica o endurecimento.

A estratégia não é original. Regimes autoritários modernos raramente abolem a Constituição. Preferem reformá-la ou legislar de modo a tornar a oposição legalmente inviável.

Significado para a região

A consolidação do regime Ortega tem implicações diretas para a América Central. A Nicarágua se junta a Cuba e Venezuela como exemplo de autocracia aberta na região, criando eixo político que desafia a ordem democrática hemisférica.

Para organismos como a OEA (Organização dos Estados Americanos), o caso nicaraguense é teste de relevância. A entidade tem capacidade limitada de pressão, e Ortega sabe disso. Sanções econômicas dos Estados Unidos tampouco mostraram eficácia em forçar mudança.

O modelo nicaraguense também serve de alerta para democracias frágeis. A erosão institucional não precisa ser abrupta. Pode ser gradual, legal e, até certo ponto, popular entre bases eleitorais fiéis.

Quem contra quem

O conflito é claro: Ortega e a estrutura sandinista contra qualquer forma de alternância de poder. Não se trata mais de disputa eleitoral entre projetos políticos, mas de sobrevivência de um regime que se confunde com a biografia de seu líder.

A oposição, desarticulada e em grande parte exilada, não representa ameaça imediata. Mas Ortega não governa apenas contra adversários reais. Governa contra a possibilidade de que adversários venham a existir.

É o autoritarismo preventivo levado às últimas consequências. E sem eleições no horizonte, a Nicarágua entra em território político onde a mudança só virá por ruptura, não por voto.