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Netanyahu cede a ortodoxos para sobreviver politicamente

Netanyahu cede a ortodoxos para sobreviver politicamente
Foto: toi.li

Benjamin Netanyahu está nos seus últimos dias como primeiro-ministro de Israel. E escolheu sacrificar décadas de equilíbrio secular para comprar tempo político.

O veterano líder israelense cedeu às principais demandas do partido Haredi – os judeus ultraortodoxos – numa aposta de última hora. A conta é simples: sem o apoio religioso, não há retorno ao poder após as eleições.

O preço da sobrevivência

As concessões incluem isenções ampliadas do serviço militar obrigatório e financiamento expandido para instituições religiosas. Medidas que historicamente geraram fricção na sociedade israelense.

Netanyahu governa Israel há mais tempo que qualquer outro líder na história do país. Mas enfrenta agora uma conjuntura que combina processos judiciais, erosão de apoio popular e fragmentação de sua base tradicional.

A aliança com os Haredi não é novidade. O que mudou foi a amplitude das concessões.

Precedente perigoso

A estratégia tem paralelos com movimentos políticos em outras democracias sob pressão. Líderes sitiados frequentemente recorrem a bases ideológicas mais estreitas e radicais quando perdem apelo junto ao eleitorado médio.

No Brasil, observamos dinâmica similar quando governantes em crise aprofundam vínculos com segmentos religiosos ou corporativos específicos. A lógica é idêntica: trocar políticas públicas por garantias de sobrevivência eleitoral.

Israel vive momento particularmente delicado. O país enfrenta tensões regionais crescentes, divisões internas sobre a ocupação da Cisjordânia e questionamentos sobre o futuro de seu modelo democrático liberal.

Quem ganha, quem perde

Os Haredi consolidam posição privilegiada. Representam cerca de 13% da população israelense, mas exercem influência desproporcional na política do país.

A população secular – majoritária – vê com desconforto crescente as isenções militares. Enquanto jovens seculares servem em unidades de combate no exército, jovens ultraortodoxos estudam textos religiosos com subsídio estatal.

Netanyahu aposta que a insatisfação secular não se traduzirá em votos para a oposição. Calcula que sua base de direita nacionalista permanecerá leal, mesmo contrariada.

É cálculo arriscado.

Lições para outras democracias

O caso israelense oferece laboratório político para observadores globais. Mostra como líderes longevos, quando ameaçados, frequentemente escolhem radicalização em vez de moderação.

A tendência não é exclusiva de Netanyahu. Erdogan na Turquia, Orbán na Hungria e Modi na Índia seguiram roteiros comparáveis: estreitar base ideológica quando ampliar tornou-se impossível.

Para o Brasil, as lições são diretas. Sistemas políticos fragmentados permitem que minorias organizadas exerçam poder de veto. Líderes sob pressão judicial ou política tendem a buscar blindagem em alianças radicais.

A questão central não é se Netanyahu conseguirá retornar ao poder. É se Israel emergirá desse período com suas instituições democráticas intactas.

Concessões feitas em momentos de desespero político raramente são revertidas. Criam precedentes, expectativas e grupos de interesse com incentivos para mantê-las permanentes.

O custo de longo prazo

Netanyahu pode ganhar alguns meses adicionais de relevância política. Mas o preço institucional será pago por gerações.

A erosão de consensos básicos – como o serviço militar universal – corrói a coesão social que sustenta democracias complexas.

Israel não é o único país navegando essa tensão. Mas poucos enfrentam ameaças externas tão concretas enquanto lidam com fragmentação interna tão profunda.

O desfecho dessa aposta política definirá não apenas o legado de Netanyahu. Definirá o tipo de país que Israel será nas próximas décadas.