Política

Morte de técnico expõe falhas na segurança pública estadual

Morte de técnico expõe falhas na segurança pública estadual
Foto: Metrópoles

Um corpo carbonizado encontrado em área isolada. A vítima: Wallace Serodio Prado, 34 anos, técnico de instalação de portões automáticos. O desaparecimento ocorreu após concluir um serviço rotineiro em uma residência na quinta-feira, 30 de janeiro.

O caso não é isolado. Representa um padrão que se repete em estados onde a segurança pública colapsou.

O Contexto Estrutural

A morte de Wallace expõe uma fratura no sistema federativo brasileiro. A Constituição de 1988 delegou aos estados a responsabilidade primária pela segurança pública. Mas o arranjo institucional criou um vácuo de coordenação.

O presidencialismo de coalizão — modelo em que o Executivo federal governa mediante alianças partidárias amplas — não consegue produzir políticas uniformes de segurança. Cada governador responde a bases eleitorais distintas. Cada secretaria estadual opera com protocolos próprios.

O resultado: fragmentação operacional.

Quem Contra Quem

De um lado, cidadãos como Wallace, trabalhadores autônomos expostos à violência urbana sem proteção estatal adequada. De outro, uma estrutura governamental incapaz de articular respostas coordenadas entre União, estados e municípios.

Não é incompetência individual. É falha de desenho institucional.

O Precedente Histórico

O Brasil experimentou ciclos de descentralização desde a redemocratização. A Constituinte de 1987-88 transferiu atribuições aos estados como reação ao centralismo militar. A segurança pública foi uma dessas áreas.

Três décadas depois, os números revelam o custo: mais de 40 mil homicídios anuais em média na última década. Profissionais como Wallace integram estatísticas que deveriam provocar reformas estruturais.

"A fragmentação federativa em segurança pública cria zonas cinzentas onde o crime organizado prospera."

O Problema da Coalizão

O presidencialismo de coalizão dificulta ainda mais a coordenação. Para governar, o presidente precisa distribuir ministérios e recursos entre aliados. Governadores barganham autonomia em troca de apoio no Congresso.

Segurança pública raramente entra nessa negociação como prioridade. É tratada como questão local, não nacional. O Ministério da Justiça possui instrumentos limitados de indução. A Força Nacional age apenas quando requisitada.

O sistema funciona por demanda, não por planejamento.

Wallace e os Invisíveis

Técnicos, entregadores, comerciantes. Profissionais que circulam por territórios diversos para trabalhar. São os mais vulneráveis em contextos de violência urbana descontrolada.

Wallace desapareceu após um serviço de instalação. Não há informações sobre mandantes ou motivação. A investigação corre em sigilo.

Mas o padrão se repete: desaparecimento súbito, corpo encontrado dias depois, família sem respostas.

A Questão Federativa

Estados com maior capacidade fiscal investem mais em polícia, perícia, inteligência. Estados mais pobres dependem de repasses federais que nunca chegam na proporção necessária.

A desigualdade federativa aprofunda a desigualdade na segurança. Trabalhadores como Wallace pagam o preço dessa assimetria.

O Que Significa

A morte de Wallace Serodio Prado representa mais que uma tragédia individual. Simboliza o esgotamento de um modelo de gestão de segurança pública que não dialoga com a realidade do crime contemporâneo.

Organizações criminosas operam em rede nacional. O Estado responde de forma fragmentada, estadualizada, descoordenada.

O presidencialismo de coalizão, desenhado para garantir governabilidade mediante alianças amplas, não consegue impor padrões mínimos de coordenação federativa em áreas críticas.

Enquanto a reforma dessa estrutura não acontece, casos como o de Wallace continuarão se repetindo. Trabalhadores anônimos, estatísticas sem rosto, vítimas de uma arquitetura institucional que não os protege.