Política

Morte no Guarujá expõe fragilidade da lei seca no Brasil

Morte no Guarujá expõe fragilidade da lei seca no Brasil
Foto: Metrópoles

Uma câmera de segurança registrou o momento exato em que um carro em alta velocidade atinge e mata uma nutricionista de 25 anos no Guarujá, litoral paulista. O motorista estava alcoolizado. Foi preso. Responderá por homicídio culposo.

O caso é mais um capítulo de uma história conhecida: a incapacidade do Estado brasileiro de fazer valer suas próprias leis.

O Padrão que se Repete

Desde 2008, a Lei Seca determina tolerância zero para motoristas com qualquer nível de álcool no sangue. Dezesseis anos depois, o Brasil registra uma morte no trânsito a cada 15 minutos. Metade delas relacionada ao consumo de álcool.

Os números revelam algo maior que falha operacional. Revelam crise institucional.

A fiscalização existe no papel. Blitzes são anunciadas. Campanhas são veiculadas. Mas a aplicação sistemática da norma — aquela que muda comportamento — não se concretiza.

Democracia e Contrato Social

A questão transcende o trânsito. Atinge o núcleo do pacto democrático: a confiança de que regras acordadas serão cumpridas e fiscalizadas de forma igual para todos.

Quando leis não pegam, três coisas acontecem simultaneamente:

  • O cidadão cumpridor se sente desestimulado
  • O infrator calcula a impunidade
  • A legitimidade do Estado se corrói

Não é fenômeno exclusivo do trânsito. Repete-se em segurança pública, meio ambiente, direitos trabalhistas. O padrão é o mesmo: norma avançada, execução precária.

O Custo da Omissão

A nutricionista morta no Guarujá tinha nome, família, projetos. Representava potencial humano interrompido por decisão evitável de terceiro.

Evitável não apenas no momento da direção alcoolizada. Evitável na cadeia de omissões que antecede o crime: falta de fiscalização na saída do estabelecimento, ausência de blitz no trajeto, cultura de tolerância com a infração.

Cada morte dessas não é acidente. É resultado previsível de sistema que escolheu não funcionar plenamente.

Precedente Histórico

O Brasil tem experiência com mudança de comportamento via enforcement rigoroso. A obrigatoriedade do cinto de segurança enfrentou resistência similar nos anos 1990. Hoje é automática.

A diferença: fiscalização constante, multa pesada, pontos na carteira. O trinômio funcionou.

Com álcool, falta a mesma determinação. Bafômetros insuficientes. Efetivo policial reduzido. Punição que raramente chega.

Quem Contra Quem

De um lado, famílias destruídas por motoristas embriagados exigindo aplicação efetiva da lei. Do outro, uma estrutura estatal fragmentada entre União, estados e municípios, incapaz de coordenar fiscalização sistemática.

No meio, uma sociedade que oscila entre indignação nas redes sociais e complacência prática com o amigo que bebeu "só duas".

O Significado Mais Amplo

Este caso individual ilumina crise mais profunda da democracia brasileira: a distância entre o Brasil legal e o Brasil real.

Temos Constituição avançada, legislação progressista, tratados internacionais ratificados. Mas a República que funciona nas ruas difere daquela desenhada nos códigos.

Quando instituições não entregam o prometido, abre-se espaço para soluções autoritárias. O discurso de "mão dura" cresce não no vácuo, mas no terreno fértil da ineficácia institucional.

A morte no Guarujá não deveria ser estatística. Deveria ser ponto de inflexão. O teste está em saber se desta vez algo mudará — ou se apenas esperaremos a próxima tragédia anunciada.

A democracia brasileira não será derrotada por golpe. Será corroída pela incapacidade de fazer valer o combinado. Uma morte evitável por vez.