Política

Morte de cantor gospel aos 41 anos expõe fragilidade do SUS

Morte de cantor gospel aos 41 anos expõe fragilidade do SUS
Foto: Metrópoles

Diogo Nascimento não chegou aos 42 anos. O cantor gospel morreu em Goiânia vítima de aplasia medular, doença autoimune que paralisa a produção de células sanguíneas. Tinha 41 anos. Deixa mulher e três filhos.

A aplasia medular é rara. Atinge cerca de 200 brasileiros por ano. Mas é tratável. Com transplante de medula óssea, a sobrevida passa de 70% em cinco anos. O problema é chegar lá.

O sistema que falha

O caso expõe a engrenagem emperrada do SUS. Filas intermináveis para transplante. Falta de doadores cadastrados. Hospitais sem estrutura para casos complexos.

Nascimento estava internado em Goiânia. A cidade tem três hospitais de referência para transplantes. Mas a fila de espera por medula óssea no Centro-Oeste ultrapassa 400 pacientes. O prazo médio para encontrar doador compatível é de seis meses. A doença não espera.

Em 2024, o Brasil registrou queda de 12% no número de transplantes de medula em relação a 2023. O Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) tem 5,6 milhões de cadastrados. Parece muito. Mas a compatibilidade genética é de uma em 100 mil.

A política da saúde

O Ministério da Saúde gastou R$ 4,2 bilhões com transplantes em 2024. O valor cresceu 8% em relação ao ano anterior. Mas a fila cresceu mais. São 65 mil pessoas aguardando algum tipo de transplante no país.

O problema não é só dinheiro. É gestão. Estados e municípios brigam por repasses federais. Hospitais universitários sofrem com cortes orçamentários. A burocracia paralisa processos que deveriam ser urgentes.

O caso Diogo Nascimento não é isolado. É sintoma. Revela um sistema de saúde que funciona aos trancos. Que atende bem quem tem plano privado. Que deixa morrer quem depende do SUS.

O silêncio político

Nenhum parlamentar de Goiás se manifestou sobre a morte do cantor até o fechamento desta reportagem. Nenhuma nota oficial do governo estadual. Nenhuma promessa de melhorias no sistema de transplantes.

O Brasil gasta 9,6% do PIB com saúde. Países desenvolvidos gastam entre 10% e 12%. A diferença parece pequena. Mas representa R$ 100 bilhões por ano. Dinheiro que salvaria vidas como a de Diogo Nascimento.

O músico gospel era conhecido na comunidade evangélica de Goiânia. Cantava em igrejas. Gravou dois álbuns independentes. Tinha 180 mil seguidores nas redes sociais. Usou as plataformas para pedir doadores de medula. Não encontrou a tempo.

A conta que não fecha

O custo de um transplante de medula óssea no SUS é de R$ 80 mil em média. Parece caro. Mas é investimento. O paciente tratado volta a produzir. A pagar impostos. A sustentar família.

A conta do abandono é mais alta. Três filhos sem pai. Uma viúva sem marido. Uma carreira musical interrompida. Uma vida que valia mais que R$ 80 mil.

Diogo Nascimento morreu porque o sistema falhou. Não por falta de tecnologia. Não por falta de conhecimento médico. Por falta de prioridade política.

O enterro será em Goiânia. A família pede que, em vez de flores, as pessoas se cadastrem como doadoras de medula óssea. É o último pedido de um homem que cantava sobre vida eterna. E que perdeu a terrena cedo demais.