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Mercado gamer cresce e pressiona coalizão presidencial

Mercado gamer cresce e pressiona coalizão presidencial
Foto: olhardigital.com.br

O mercado brasileiro de games movimentou R$ 11 bilhões em 2025. E ninguém no Planalto sabe o que fazer com isso.

A oferta de headsets gamers na Amazon — produtos importados, em sua maioria — expõe uma fratura silenciosa na coalizão presidencial: o Ministério do Desenvolvimento quer taxar importados para proteger indústria nacional inexistente. A Fazenda precisa de receita. O Palácio não quer desgaste com classe média digital.

O conflito: protecionismo versus pragmatismo fiscal

Três ministérios travam disputa subterrânea sobre tributação de eletrônicos de consumo. Desenvolvimento, Indústria e Comércio defende alíquotas elevadas para produtos asiáticos. Fazenda quer simplificar arrecadação via plataformas digitais. Casa Civil teme reação nas redes sociais.

A base aliada no Congresso divide-se entre ruralistas — favoráveis ao livre comércio de insumos — e sindicalistas do ABC paulista, que pressionam por barreiras tarifárias. A coalizão presidencial não construiu consenso.

Precedente histórico: a lei de informática que nunca funcionou

Desde 1991, o Brasil tenta criar indústria nacional de eletrônicos via incentivos fiscais. Fracassou. A chamada Lei de Informática custou R$ 87 bilhões em renúncias entre 2000 e 2024, segundo Tribunal de Contas da União. Resultado: zero fabricantes nacionais de semicondutores.

Headsets, teclados, mouses — todo o ecossistema gamer depende de importação chinesa ou taiwanesa. A política industrial brasileira ignora isso há três décadas.

Quem ganha com o impasse

Enquanto Brasília debate, a Amazon fatura. A gigante americana consolidou 68% do mercado brasileiro de periféricos gamers em 2025, segundo consultoria IDC. Varejistas nacionais perderam participação.

A ausência de diretriz clara — taxar ou não taxar, proteger ou liberalizar — beneficia exclusivamente plataformas estrangeiras com logística sofisticada. A coalizão presidencial deixou o mercado à deriva.

O que significa para a governabilidade

A incapacidade de coordenar política industrial entre ministérios aliados revela fragilidade estrutural. Não se trata apenas de headsets ou games. É sintoma.

Setores estratégicos — semicondutores, baterias elétricas, energias renováveis — dependem de consenso entre Desenvolvimento, Fazenda, Minas e Energia, Meio Ambiente. A coalizão presidencial não demonstra capacidade de articulação horizontal.

O presidente governa com 15 partidos. Nenhum deles construiu posição programática sobre economia digital. A base de apoio é fisiológica, não ideológica. Funciona para aprovar emendas parlamentares. Trava quando exige projeto de país.

Cenário internacional pressiona

China e Coreia do Sul lideram produção global de periféricos eletrônicos. Estados Unidos e União Europeia já adotaram subsídios diretos para repatriar manufatura estratégica. Brasil segue sem estratégia.

A janela para construir cadeia produtiva nacional fecha rapidamente. Cada trimestre de inação consolida dependência externa. A coalizão presidencial assiste passivamente.

O eleitor gamer como ator político

Quinze milhões de brasileiros consomem conteúdo gamer diariamente. Demograficamente jovens, urbanos, conectados — perfil de eleitor volátil, decisivo em disputas apertadas.

A percepção de incompetência governamental em temas digitais afeta aprovação presidencial nesse segmento. Pesquisa Datafolha de março mostrou: entre eleitores de 16 a 24 anos, governo tem 34% de reprovação. Economia digital é tema recorrente em grupos focais.

A coalizão presidencial subestima o custo eleitoral da omissão em política industrial para eletrônicos de consumo.

Perspectiva

O impasse continuará enquanto ministérios tiverem agendas conflitantes sem mediação presidencial efetiva. A base aliada no Congresso não preencherá esse vácuo — não tem interesse nem capacidade técnica.

Mercado de games crescerá independentemente de Brasília. A questão é se esse crescimento gerará empregos formais no Brasil ou apenas royalties para multinacionais asiáticas e americanas.

Por enquanto, a coalizão presidencial escolheu não escolher. E isso, em política industrial, já é uma escolha.