Política

R$ 135 milhões da Mega-Sena: a loteria como política pública

R$ 135 milhões da Mega-Sena: a loteria como política pública
Foto: Metrópoles

R$ 135 milhões. O prêmio da Mega-Sena acumulou novamente neste sábado, e o próximo sorteio, marcado para terça-feira (4/2) no Espaço da Sorte em São Paulo, movimentará filas, expectativas e, principalmente, centenas de milhões de reais em arrecadação estatal.

Poucos brasileiros percebem, mas as loterias federais representam hoje um dos principais instrumentos de financiamento de políticas públicas no país — um mecanismo que combina esperança individual com arrecadação coletiva, num modelo que seria impensável em democracias mais consolidadas.

O Estado apostador: quando a loteria vira política fiscal

Desde a federalização das loterias em 1961, durante o governo Jânio Quadros, o Estado brasileiro mantém monopólio sobre jogos de azar — formalmente proibidos, exceto quando operados pela Caixa Econômica Federal. A contradição é deliberada.

Em 2023, as loterias federais arrecadaram mais de R$ 20 bilhões, com destinação obrigatória para seguridade social, esporte, cultura e segurança pública. Trata-se de uma tributação voluntária disfarçada de entretenimento, onde os mais pobres financiam desproporcionalmente programas dos quais deveriam ser beneficiários.

A regressividade é conhecida. Estudos do IPEA demonstram que famílias de baixa renda comprometem percentual maior de seus rendimentos com apostas do que as classes médias e altas. O sonho de enriquecimento rápido funciona como válvula de escape em sociedades de mobilidade social travada.

Precedente histórico: loterias e construção do Estado

O Brasil não inventou esse modelo. Loterias financiaram a construção da Muralha da China, a independência dos Estados Unidos e obras públicas em toda Europa moderna. A diferença está na escala contemporânea e na dependência orçamentária.

Quando a Mega-Sena foi criada em 1996, durante o governo FHC, a lógica era clara: ampliar arrecadação sem aumentar impostos diretos, num momento de ajuste fiscal pós-Plano Real. O modelo funcionou além das expectativas. Hoje, prefeituras e estados disputam judicialmente maior fatia desses recursos.

A Lei 13.756/2018, sancionada no governo Temer, destinou parte da arrecadação para segurança pública e esporte — setores cronicamente subfinanciados. Foi uma solução criativa para crise fiscal estrutural, mas reveladora da fragilidade do pacto tributário brasileiro.

Paradoxo eleitoral: ninguém campanha contra loterias

Esquerda e direita concordam silenciosamente sobre as loterias. Nenhum partido importante propõe sua extinção. A razão é simples: são politicamente cômodas e fiscalmente necessárias.

Diferentemente de impostos, que geram resistência e debate público, loterias operam sob consentimento individualizado. Cada apostador acredita estar comprando chance pessoal, não financiando o orçamento público. É tributação por ilusão.

O governo Lula manteve e expandiu o sistema. O governo Bolsonaro fez o mesmo. A continuidade atravessa gestões porque resolve problema que nenhuma reforma tributária ousa enfrentar: como arrecadar sem custo político.

Impacto social: quem paga a conta da esperança

Enquanto o prêmio de R$ 135 milhões atrai manchetes, a distribuição silenciosa dos recursos passa despercebida. Em 2024, as loterias financiaram:

  • R$ 2,8 bilhões para seguridade social
  • R$ 890 milhões para esporte olímpico e paraolímpico
  • R$ 430 milhões para cultura via Lei Rouanet
  • R$ 1,2 bilhão para segurança pública estadual

São valores significativos, mas que mascaram questão mais profunda: por que políticas essenciais dependem de arrecadação voluntária e aleatória?

A resposta está na crise do modelo tributário brasileiro. Com resistência política a reformas estruturais e limitações impostas pelo teto de gastos (até 2023) e pelo arcabouço fiscal atual, loterias tornaram-se fonte estável em cenário de instabilidade.

Perspectiva comparada: o Brasil no contexto global

Países desenvolvidos também operam loterias públicas, mas raramente como pilar orçamentário. No Reino Unido, a National Lottery financia projetos específicos, não despesas correntes. Nos EUA, loterias estaduais complementam, não substituem, tributação regular.

O Brasil inverteu a lógica. Criou dependência estrutural de recurso volátil, sujeito a ciclos econômicos e modismos. Quando economia contrai, apostas caem. Quando prêmios não acumulam, arrecadação diminui.

É gestão fiscal por sorteio — literalmente.

O que esperar do próximo sorteio

Na terça-feira, seis dezenas serão sorteadas na Avenida Paulista. Alguém pode ganhar R$ 135 milhões. Mas com certeza, o Estado arrecadará sua parte, os programas sociais receberão recursos, e o ciclo recomeçará.

A pergunta que fica: uma democracia madura deveria financiar políticas públicas essenciais através da esperança individual de enriquecimento? Ou estamos diante de sintoma de disfunção fiscal mais profunda, que nenhum governo ousa enfrentar?

Enquanto a resposta não vem, os brasileiros seguem apostando. E o Estado, arrecadando.