Política

Lula invoca soberania às vésperas do tarifaço de Trump

Lula invoca soberania às vésperas do tarifaço de Trump
Foto: Metrópoles

A partir desta quarta-feira, 22 de janeiro, produtos brasileiros enfrentam tarifas de 25% ao entrar nos Estados Unidos. Na véspera do tarifaço, Lula recorreu ao arsenal retórico mais antigo da política brasileira: a defesa da soberania nacional.

"Brasil não se entrega", disse o presidente em pronunciamento que marca uma guinada no tom diplomático adotado até aqui com Washington.

O que está em jogo

As novas tarifas impostas por Donald Trump atingem em cheio setores estratégicos da economia brasileira. Aço, alumínio, proteínas e commodities agrícolas ficam mais caros para o consumidor americano — e menos competitivos frente a concorrentes de outros países.

O Palácio do Planalto convocou às pressas reuniões com representantes dos setores afetados. A pauta: construir uma resposta coordenada que equilibre retaliação comercial e diplomacia pragmática.

Trata-se de um dilema clássico da política externa brasileira. Brasília precisa demonstrar firmeza sem romper com seu principal parceiro comercial nas Américas.

Precedentes históricos

O discurso de soberania econômica não é novidade no repertório petista. Durante os governos do PT entre 2003 e 2016, a retórica antiimperialista serviu tanto para galvanizar bases eleitorais quanto para negociar concessões em mesas de negociação.

A diferença agora reside no contexto. Lula retorna ao poder em um mundo multipolar, onde a China rivaliza com os EUA e onde acordos bilaterais substituíram a arquitetura multilateral do comércio global.

Nos anos 2000, Lula conseguiu navegar entre Washington e Pequim sem pagar custos elevados. A aposta era simples: o boom das commodities tornava o Brasil relevante demais para ser punido.

Hoje, essa margem de manobra encolheu. A economia brasileira cresce devagar. A influência geopolítica diminuiu. E Trump não demonstra a paciência diplomática de Bush ou Obama.

A matemática política por trás do discurso

O timing do pronunciamento presidencial revela cálculo eleitoral. Ao adotar postura confrontacional, Lula busca recuperar apoio de setores nacionalistas e da esquerda ortodoxa, decepcionados com alianças centristas no Congresso.

Simultaneamente, o governo sabe que não pode bancar uma guerra comercial prolongada. O agronegócio brasileiro — setor politicamente influente e economicamente vital — pressiona por soluções negociadas, não por gestos simbólicos.

A estratégia parece ser: falar duro em público, negociar discretamente nos bastidores.

Quem ganha e quem perde

Perdedores imediatos são exportadores brasileiros que dependem do mercado americano. Frigoríficos, siderúrgicas e produtores de alumínio enfrentam margens menores ou perda de contratos.

Ganhadores potenciais incluem produtores voltados ao mercado interno, que podem se beneficiar de medidas compensatórias do governo — subsídios, linhas de crédito, desoneração tributária.

No plano político, Lula aposta em dividendos eleitorais de curto prazo. Discursos de resistência soberana costumam render bem em pesquisas de aprovação, especialmente entre eleitores de esquerda.

O risco está no médio prazo. Se as tarifas persistirem e a economia desacelerar, a conta política chegará inevitavelmente ao Planalto.

O tabuleiro global

O tarifaço de Trump não atinge apenas o Brasil. Canadá, México, União Europeia e China enfrentam medidas similares. Washington busca reconfigurar cadeias produtivas globais, trazendo empregos industriais de volta ao território americano.

Para países emergentes como o Brasil, isso representa um desafio estrutural. O modelo exportador de commodities — que sustentou o crescimento brasileiro nas últimas décadas — perde viabilidade em um mundo de guerras comerciais e protecionismo crescente.

Brasília terá que decidir: aprofundar laços com a China, aceitando as implicações geopolíticas, ou buscar acomodação com Washington, pagando o preço da subordinação.

Não há saídas fáceis. Apenas escolhas difíceis que definirão o lugar do Brasil no mundo pós-globalização.