Lula anuncia 4º mandato com guerra contra Congresso e partidos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acaba de jogar na mesa a carta mais arriscada de sua carreira política. Ao confirmar que disputará um quarto mandato em 2026, ele não prometeu consenso. Prometeu guerra.
O alvo: o sistema de emendas parlamentares e o fundo partidário. O inimigo: o próprio Congresso Nacional que o sustenta no poder desde 2023.
O fim do Lulinha paz e amor
"Não serei o Lulinha paz e amor", declarou o presidente em evento recente. A frase marca uma ruptura. Desde que retornou ao Planalto, Lula manteve postura conciliatória com o Legislativo. Distribuiu ministérios. Negociou emendas. Cedeu em pautas fiscais.
Agora, anuncia o contrário.
A promessa de "briga democrática" contra emendas e fundo partidário representa um ataque frontal ao modo como a política brasileira opera há pelo menos duas décadas. As emendas parlamentares se tornaram o principal instrumento de governabilidade. São a moeda de troca entre Executivo e Legislativo.
O que está em jogo
O orçamento de emendas parlamentares saltou de R$ 5 bilhões em 2010 para mais de R$ 50 bilhões em 2024. O fundo partidário, que financia campanhas e estrutura dos partidos, ultrapassou R$ 4,9 bilhões no último ciclo eleitoral.
Esses números representam poder. Poder de deputados e senadores sobre prefeituras. Poder de legendas sobre candidatos. Poder que Lula agora diz querer cortar.
A estratégia tem precedente histórico. Fernando Collor tentou governar contra o Congresso nos anos 1990. Sofreu impeachment. Jânio Quadros renunciou após sete meses. Dilma Rousseff perdeu a Presidência em 2016 quando a base aliada virou contra ela.
Por que agora
Três fatores explicam o timing da declaração.
Primeiro: as emendas parlamentares estão sob escrutínio do Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino impôs regras de transparência que desagradaram o Congresso. Lula surfa na onda.
Segundo: o fundo partidário virou alvo de crítica popular. Em ano eleitoral, atacar privilégios da classe política rende dividendos nas pesquisas.
Terceiro: antecipação. Ao anunciar a candidatura com dois anos de antecedência, Lula tenta pautar o debate público. Define o terreno da disputa antes dos adversários.
O risco calculado
A aposta é arriscada por razões objetivas.
Lula depende do Congresso para aprovar qualquer medida até 2026. Uma reforma tributária ainda em tramitação. Ajustes fiscais necessários. Indicações para estatais e agências reguladoras.
Declarar guerra ao sistema de emendas pode custar caro. Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, presidentes da Câmara e do Senado, comandam a torneira do orçamento. Podem fechar. Podem travar. Podem inviabilizar o governo.
Mas o presidente fez as contas políticas. Suas pesquisas internas devem mostrar que o eleitor médio brasileiro rejeita o Congresso. Rejeita os gastos com política. Rejeita o que enxerga como privilégios.
Ao atacar emendas e fundo partidário, Lula se posiciona do lado da rua contra o establishment. Movimento clássico de populismo — mesmo vindo de dentro do sistema.
O que vem pela frente
Espere reação. O Congresso não aceita passivamente ataques ao seu poder de barganha. Deputados e senadores dependem das emendas para manter influência em suas bases eleitorais.
A articulação política do Planalto terá trabalho dobrado. Precisará acalmar aliados enquanto o presidente escala o discurso público.
E há um paradoxo inevitável: para aprovar qualquer mudança no sistema de emendas ou no fundo partidário, Lula precisa exatamente daqueles que serão prejudicados pela mudança.
O xadrez político do quarto mandato começa antes da campanha. Começa agora, com Lula testando até onde pode ir no confronto sem perder a governabilidade.
A história da política brasileira sugere que esse equilíbrio é dos mais difíceis. Poucos conseguiram. Muitos fracassaram ao tentar.