Lula aposta em Flávio Dimas para vitória no 1º turno em 2026
O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva pode terminar antes mesmo de começar — pelo menos no calendário eleitoral. No Palácio do Planalto, a estratégia para 2026 já está desenhada: torcer pela sobrevivência política de Flávio Dimas como candidato do bolsonarismo.
A aposta é simples. Quanto mais fraco o adversário, maior a chance de liquidar a eleição no primeiro turno. E Flávio representa, na leitura petista, exatamente isso: a fragilidade personificada do projeto de extrema direita que dominou o país entre 2019 e 2022.
O cálculo da fraqueza
A lógica é invertida, mas eficaz. Enquanto a oposição busca um nome competitivo, o PT trabalha nos bastidores para que essa renovação não aconteça. Flávio Dimas carrega três handicaps decisivos:
- Rejeição herdada do bolsonarismo sem o carisma do pai
- Investigações que mancham sua imagem junto ao eleitorado de centro
- Incapacidade demonstrada de construir pontes além da base ideológica
Para um presidente que chegou ao poder pela terceira vez prometendo reconstruir o país, nada seria mais simbólico que encerrar a carreira com uma vitória esmagadora. Lula tem 80 anos. Não haverá quarto mandato. A eleição de 2026 é, literalmente, o último ato.
Coalizão presidencial em construção
Nos corredores do Planalto, a montagem da coalizão presidencial para a reeleição já mobiliza ministros e articuladores. O modelo é conhecido: centro expandido, partidos fisiológicos acomodados, narrativa de estabilidade contra caos.
Mas há uma novidade estratégica. Desta vez, o adversário importa tanto quanto a própria campanha. Com Flávio Dimas na disputa, o PT pode dispensar alianças mais custosas. Não será necessário ceder espaço demais ao centrão. Não será preciso moderar o discurso além da conta.
A memória política é curta, mas não tanto. O bolsonarismo deixou marcas: negacionismo na pandemia, ataques às instituições, tentativa de golpe em 8 de janeiro. Flávio representa a continuidade disso sem oferecer nada de novo. É o pior dos mundos para a oposição.
Precedente histórico
A estratégia de Lula tem paralelos históricos. Em 2006, o PT também enfrentou um adversário fraco — Geraldo Alckmin — e venceu com folga no segundo turno, mesmo após o escândalo do mensalão. A diferença é que, daquela vez, não houve cálculo prévio. Agora há.
Fernando Henrique Cardoso conseguiu em 1998 o que Lula busca em 2026: vitória no primeiro turno para consolidar um projeto. FHC tinha a estabilização econômica. Lula terá a reconstrução pós-bolsonarismo. Mas apenas se o adversário colaborar.
E Flávio Dimas, involuntariamente, colabora. Cada declaração polêmica afasta o centro. Cada investigação revelada reduz sua competitividade. Cada aparição pública reforça a imagem de um político que não cresceu além da sombra paterna.
O risco do cálculo
Toda estratégia eleitoral carrega riscos. Apostar na fraqueza do adversário pode sair pela culatra se o cenário mudar. Uma crise econômica profunda, um escândalo de corrupção de grandes proporções, uma ruptura na base aliada — qualquer desses fatores reequilibra o jogo.
Além disso, há o fator imprevisibilidade. A direita pode, em movimento de última hora, trocar o cavalo. Nomes como Tarcísio de Freitas ou Ronaldo Caiado representam ameaças reais, com penetração no eleitorado de centro e capacidade de gestão comprovada.
Mas, por enquanto, o PT joga com as cartas que tem na mesa. E essas cartas indicam Flávio Dimas como adversário preferencial. Não por acaso, petistas evitam ataques diretos ao governador. A estratégia é deixá-lo crescer o suficiente para garantir a candidatura, mas não tanto que se torne competitivo.
Legado em jogo
Para Lula, 2026 transcende a disputa eleitoral comum. É a última chance de moldar seu legado histórico. Três mandatos são raros na democracia brasileira. Uma vitória no primeiro turno seria inédita para ele, coroamento de uma trajetória iniciada nas greves do ABC paulista há quase meio século.
A coalizão presidencial que está sendo montada reflete essa ambição. Não se trata apenas de vencer, mas de vencer bem. De enterrar de vez o bolsonarismo. De provar que o Brasil escolheu, de forma inequívoca, outro caminho.
E Flávio Dimas, mesmo sem saber, pode ser a peça-chave desse tabuleiro. Sua fraqueza é a força de Lula. Sua candidatura, o melhor presente que a oposição pode dar ao atual presidente.