Política

Krugman: tarifas de Trump podem fortalecer presidencialismo de Lula

Krugman: tarifas de Trump podem fortalecer presidencialismo de Lula
Foto: Metrópoles

Paul Krugman, Nobel de Economia 2008, fez uma aposta improvável: as tarifas comerciais de Donald Trump podem ser o melhor aliado político de Luiz Inácio Lula da Silva em 2025.

O economista americano avalia que a ameaça protecionista da Casa Branca fracassará contra o Brasil. E o fracasso fortalecerá o governo petista internamente.

A diversificação como escudo

Krugman aponta um dado central: a pauta exportadora brasileira mudou.

Não dependemos mais de commodities para um único mercado. A China absorve parte significativa. A Ásia diversificou destinos. A Europa mantém contratos de longo prazo.

"As tarifas contra o Brasil simplesmente não funcionarão", afirmou Krugman em entrevista recente.

A lógica é simples: quando Trump taxar produtos brasileiros, outros mercados compensarão. O Brasil realoca. Os Estados Unidos pagam mais caro internamente.

Efeito político interno

Aqui mora o ponto político.

Um embate comercial fracassado com Washington fortalece a narrativa governista de autonomia nacional. Consolida o presidencialismo de coalizão de Lula em torno de uma pauta de resistência externa.

O Planalto ganha argumentos para ampliar alianças no Congresso. A oposição perde munição ao defender alinhamento automático com os americanos.

Krugman enxerga o paradoxo: Trump, ao pressionar, entrega capital político a Lula.

O elogio ao Pix

O Nobel também destacou a inovação do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro.

"O Pix é um exemplo de como política pública pode transformar economia digital", disse.

Para Krugman, o sistema democratizou transações financeiras. Reduziu custos. Aumentou inclusão bancária.

E fez tudo isso sem depender de gigantes tecnológicas americanas. Um modelo de soberania digital que outros países estudam.

"Enquanto os Estados Unidos discutem regulação do Venmo, o Brasil já resolveu o problema com solução pública e eficiente."

Contexto do presidencialismo de coalizão

A análise de Krugman se encaixa em um momento específico da política brasileira.

Lula governa com maioria folgada no Congresso. Mas essa maioria é instável. Depende de negociações constantes. Exige concessões diárias.

O presidencialismo de coalizão brasileiro funciona assim: o Executivo forma alianças partidárias para aprovar agendas. Distribui ministérios. Libera emendas. Negocia pautas.

Um conflito externo bem-sucedido — ou mal-sucedido para o adversário americano — cria coesão interna. Une bancadas díspares em torno de interesse nacional.

É capital político gratuito para o Planalto.

O precedente histórico

A história oferece paralelos.

Em 2002, George W. Bush impôs tarifas ao aço brasileiro. O Brasil recorreu à OMC. Ganhou. O episódio fortaleceu o primeiro governo Lula, então iniciante.

Em 1977, Jimmy Carter pressionou o Brasil sobre direitos humanos. A resposta de Geisel foi romper acordo militar com Washington. O regime ganhou respaldo nacionalista temporário.

Pressão externa mal calibrada historicamente fortalece governos brasileiros. Krugman conhece esses precedentes.

O risco americano

Para os Estados Unidos, o cenário é arriscado.

Tarifas que não funcionam expõem fraqueza. Mostram limites do poder americano. Incentivam outros países a desafiar Washington.

O Brasil, com economia diversificada e parcerias globais, virou teste do protecionismo trumpista.

Se Brasília resistir sem grandes danos, o efeito dominó preocupa a Casa Branca.

Conclusão política

Krugman não está fazendo torcida ideológica. Está lendo fluxos econômicos e convertendo em análise política.

A diversificação comercial brasileira é fato. A fragilidade das tarifas unilaterais é consenso entre economistas. O fortalecimento do presidencialismo de coalizão em contexto de ameaça externa é padrão histórico.

Trump pode, involuntariamente, entregar a Lula o que a oposição brasileira não conseguiu tirar: capital político internacional que se converte em força doméstica.

O Nobel está apostando que a economia dita a política. E que o Brasil está melhor posicionado do que Washington imagina.