Política

Internação de moradores de rua expõe tensão democrática no DF

Internação de moradores de rua expõe tensão democrática no DF
Foto: Metrópoles

Quarenta e quatro pessoas. Este é o número de moradores de rua que aceitaram a chamada "internação humanizada" no Distrito Federal, segundo a governadora Celina Leão (PP). O protocolo de acolhimento, anunciado como política de assistência social, reabre uma fratura política que atravessa a democracia brasileira: até onde o Estado pode intervir na vida do cidadão em nome do bem comum?

A questão não é nova. Desde a redemocratização, governos estaduais testam os limites entre proteção social e tutela compulsória. O que torna o caso do DF emblemático é o contexto: uma capital federal que concentra desigualdade extrema, visibilidade política máxima e histórico recente de tensões institucionais.

O protocolo e seus precedentes

A internação humanizada difere da internação compulsória clássica por pressupor consentimento. Na prática, significa abordagem assistencial com oferta de tratamento em instituições. O problema analítico reside na linha tênue entre "aceitar" e "ser induzido a aceitar" quando a alternativa é permanecer nas ruas.

Precedentes históricos são problemáticos. Nos anos 2000, São Paulo testou modelos similares sob gestões tucanas. Rio de Janeiro intensificou remoções antes de megaeventos. Em todos os casos, organizações de direitos humanos documentaram violações: separação de famílias, encaminhamentos sem acompanhamento, institucionalização prolongada.

O Supremo Tribunal Federal já estabeleceu parâmetros. Internação compulsória só se justifica mediante laudo médico circunstanciado e esgotamento de alternativas menos invasivas. A versão "humanizada" tenta contornar essas exigências pelo argumento do consentimento. Mas consentimento pressupõe autonomia. E autonomia pressupõe condições mínimas de escolha.

Quem contra quem

De um lado, governos estaduais argumentam necessidade de intervenção diante de quadros de vulnerabilidade extrema. Alegam proteção à vida, saúde pública, ordenamento urbano. De outro, movimentos sociais e defensoria pública denunciam higienismo disfarçado de assistencialismo. O conflito é antigo: segurança pública versus direitos civis.

Celina Leão representa uma vertente conservadora que ganhou força no pós-2018. Governadores progressistas também já adotaram medidas controversas, evidenciando que a tensão transcende espectro partidário. O que está em jogo é modelo de gestão da pobreza visível.

A crise democrática de fundo

Este episódio dialoga com fragilidades democráticas mais amplas. Quando instituições falham em garantir direitos básicos — moradia, saúde, trabalho —, abrem espaço para soluções emergenciais que normalizam exceção.

A população em situação de rua cresceu 38% entre 2019 e 2022, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. São mais de 281 mil pessoas. Números que refletem colapso de políticas públicas estruturantes. A resposta predominante tem sido não a ampliação de direitos, mas a ampliação do aparato de controle.

Democracias consolidadas constroem redes de proteção. Democracias frágeis constroem redes de contenção. A diferença está na premissa: cidadão como sujeito de direitos ou problema a ser administrado.

O que os 44 revelam

O número divulgado pela governadora pode parecer pequeno. Mas seu significado transcende a estatística. Cada internação "aceita" naturaliza o modelo. Cada protocolo de acolhimento que dispensa garantias processuais fortalece precedente.

A experiência internacional mostra que políticas efetivas para população de rua exigem três pilares: moradia primeiro, saúde integrada, renda mínima. Modelos de institucionalização apresentam resultados limitados e custos altos — financeiros e políticos.

O Brasil enfrenta crise democrática multidimensional: institucional, representativa, social. O tratamento dado aos mais vulneráveis funciona como termômetro. Sociedades que naturalizam violação de direitos de grupos marginalizados preparam terreno para autoritarismos graduais.

As 44 pessoas que aceitaram internação no DF não são apenas dado de gestão pública. São sintoma de escolhas políticas sobre que tipo de democracia estamos construindo. Uma que expande cidadania ou que administra exclusão.