Infantino bate recorde e expõe dilema da reforma política Brasil
Gianni Infantino divulgou nas redes sociais que 6,8 milhões de torcedores passaram pelas catracas da Copa do Mundo de 2026. É recorde absoluto. Mais gente do que nunca presenciando o espetáculo ao vivo.
O número importa menos pelo futebol. Importa pelo que representa: mobilização em massa, engajamento direto, participação física em um evento de escala continental.
O contraste com a política brasileira
Enquanto a Fifa comprova que é possível mobilizar milhões de pessoas para experiências presenciais — mesmo na era digital —, a reforma política no Brasil caminha na direção oposta. O debate institucional segue trancado em Brasília, impermeável à participação popular.
A Copa aconteceu em 16 cidades de três países. Exigiu logística complexa, coordenação entre governos, investimentos bilionários. Funcionou. As pessoas compareceram.
A reforma política brasileira, ao contrário, permanece議論restrita a parlamentares, juristas e operadores partidários. O cidadão comum não participa. Nem é consultado. Nem sabe exatamente o que está em jogo.
Precedente histórico: participação sem intermediários
Nos anos 1990, a Nova Zelândia reformulou todo seu sistema eleitoral após referendo popular. A população decidiu migrar do sistema majoritário para o proporcional misto. Participação direta. Sem tutela.
O Brasil tentou algo semelhante em 1993, com o plebiscito sobre presidencialismo, parlamentarismo e monarquia. Comparecimento foi massivo. Mais de 66 milhões de votos válidos. Funcionou porque a população foi chamada a decidir.
Desde então, nada. A reforma política virou assunto de bastidores. Tema para especialistas. Letra morta para quem vive fora do Planalto.
O que Infantino prova — e Brasília ignora
O recorde de público na Copa demonstra capacidade de mobilização quando há clareza de propósito. As regras do jogo são conhecidas. O objetivo é transparente. A experiência é tangível.
A reforma política brasileira carece exatamente disso. Não há clareza sobre o que está sendo reformado. Não há transparência sobre quem ganha e quem perde. Não há experiência tangível para o eleitor comum.
Infantino administra uma entidade privada que movimenta bilhões e atinge bilhões. Criou formatos que atraem multidões. O modelo pode ser questionado — e frequentemente é —, mas entrega resultado mensurável.
O Congresso Nacional administra a coisa pública que afeta 203 milhões de brasileiros. Mas não consegue formatar uma reforma política que faça sentido para além dos muros de Brasília.
A armadilha da representação sem participação
O sistema político brasileiro opera sob premissa cada vez mais frágil: representantes eleitos decidem sozinhos como serão eleitos no futuro. É conflito de interesse estrutural.
Deputados e senadores definem regras eleitorais, financiamento de campanha, acesso a rádio e TV, cláusula de barreira. Tudo sem consultar quem será afetado — o eleitor.
Seria como a Fifa permitir que apenas 11 jogadores de cada seleção decidissem as regras da Copa. Sem ouvir técnicos, torcedores, patrocinadores ou federações nacionais.
O paralelo não é perfeito. Mas expõe a contradição: uma entidade esportiva privada mobiliza multidões e comprova viabilidade de participação em massa. Uma democracia representativa dispensa participação direta em temas que definem seu próprio funcionamento.
O que significa para a reforma política
O recorde de Infantino não muda nada no Congresso. Mas funciona como termômetro. Prova que engajamento massivo ainda é possível quando há propósito claro e regras transparentes.
A reforma política brasileira poderia aprender. Poderia submeter mudanças estruturais a referendos. Poderia criar mecanismos de consulta popular sobre financiamento eleitoral, duração de mandatos, sistemas de votação.
Não o faz porque o sistema prefere decidir sozinho. E seguirá decidindo sozinho enquanto não houver pressão externa suficiente.
Infantino celebra 6,8 milhões de pessoas que escolheram participar. A reforma política brasileira segue excluindo 150 milhões de eleitores que não foram convidados a opinar.
Um é entretenimento. Outra é institucionalidade democrática. Mas ambos provam a mesma coisa: participação depende de convite. E Brasília não está convidando ninguém.