Incêndios em SP: 90% são criminosos e multa chega a R$ 3 mil
Nove em cada dez incêndios florestais em São Paulo são provocados intencionalmente. O dado da Defesa Civil estadual expõe um problema que vai além da gestão ambiental: trata-se de criminalidade em massa, com motivações que variam da renovação ilegal de pastagens à especulação fundiária.
O período entre junho e outubro foi classificado como "fase vermelha" pelas autoridades. A seca severa transforma qualquer fagulha em desastre potencial. As multas podem alcançar R$ 3.000 por hectare queimado, mas a fiscalização segue insuficiente diante da extensão territorial paulista.
O padrão histórico da destruição
A ação humana como principal vetor de incêndios não é novidade na história ambiental brasileira. Desde a colonização, o fogo serviu como ferramenta de limpeza agrícola. O que mudou foi a escala e a intencionalidade criminosa.
Em São Paulo, estado mais rico da federação, a persistência desse padrão revela falhas estruturais. A capacidade de monitoramento existe. A tecnologia está disponível. O que falta é vontade política para transformar dados em ação efetiva.
Quem ganha com o fogo
Por trás dos 90% de incêndios provocados estão interesses econômicos claros. Pecuaristas queimam para renovar pasto barato. Grileiros usam o fogo para "limpar" terras invadidas. Especuladores desvalorizam áreas para compra posterior.
A Defesa Civil conhece os padrões. As queimadas não são aleatórias no tempo ou no espaço. Concentram-se em regiões específicas, repetem-se anualmente, seguem calendários agrícolas irregulares.
Mesmo assim, as condenações por crimes ambientais dessa natureza permanecem raras. A multa de R$ 3.000 por hectare soa intimidadora no papel, mas a aplicação efetiva depende de flagrante ou investigação conclusiva — raridades no interior paulista.
O contexto político da omissão
A questão ambiental no Brasil sempre foi refém de disputas políticas mais amplas. Governos estaduais e federal alternam entre discursos de rigor e práticas de leniência, conforme a composição de suas bases de apoio.
Em São Paulo, o agronegócio representa força política incontornável. Municípios inteiros dependem economicamente de atividades que, na margem, recorrem ao fogo irregular. Prefeitos sabem disso. Deputados estaduais também.
A Defesa Civil emite alertas, divulga estatísticas, estabelece fases de risco. Mas a cadeia de comando entre informação técnica e decisão política permanece interrompida por interesses locais.
Precedentes e consequências
O padrão paulista replica-se nacionalmente. Amazônia, Pantanal, Cerrado: todos os biomas brasileiros enfrentam o mesmo dilema. Incêndios majoritariamente provocados, fiscalização minoritária, punições residuais.
A diferença é que São Paulo tem recursos, tecnologia e estrutura administrativa que outros estados não possuem. Se nem aqui a criminalidade ambiental por fogo é contida, o precedente para o resto do país é desalentador.
A fase vermelha se estenderá até outubro. Depois virão as chuvas, o ciclo recomeçará, e os mesmos 90% de incêndios criminosos voltarão a ocorrer no próximo ano seco.
O que isso significa
Significa que o Brasil, e São Paulo especificamente, trata crimes ambientais como contravenções administrativas. Significa que a legislação existe mas a aplicação é seletiva. Significa, principalmente, que há escolha política por trás da omissão.
Enquanto queimar for mais barato e seguro que métodos legais de manejo, os incêndios continuarão. A Defesa Civil continuará emitindo alertas. E os 90% de origem criminosa permanecerão estatística anual, não escândalo mobilizador de mudança.
O fogo em São Paulo não é acidente. É política.