Política

A ilusão tecnológica: como a corrida da IA ameaça empresas

A ilusão tecnológica: como a corrida da IA ameaça empresas
Foto: Poder360

Empresas brasileiras estão queimando recursos em projetos de inteligência artificial que não entregam resultados. A conta chega no fim do mês: custos mais altos, eficiência zero.

Michelle Ferreira, especialista em tecnologia corporativa, identificou um padrão preocupante. Companhias entram na "moda" da IA sem estratégia definida. Gastam fortunas em ferramentas que não conversam entre si. Contratam consultorias caras para resolver problemas que nem entenderam direito.

O fenômeno revela algo maior. A fragilidade institucional brasileira — marca registrada da crise democracia brasil — contamina também o setor privado. Falta planejamento de longo prazo. Sobra improviso.

O custo da corrida cega

A lógica é simples e brutal. Executivos leem manchetes sobre ChatGPT e concorrentes adotando IA. Sentem pressão do conselho. Aprovam orçamentos sem diagnóstico prévio.

Resultado: pilhas de softwares incompatíveis. Equipes sem treinamento adequado. Processos que ficaram mais lentos, não mais rápidos.

Ferreira aponta o erro fundamental: confundir ferramenta com estratégia. "IA é meio, não fim", diz. Mas muitos tratam como solução mágica para problemas que sequer mapearam corretamente.

Paralelo político inquietante

A semelhança com a gestão pública brasileira não é coincidência. Em ambos os casos, há:

  • Decisões baseadas em aparência, não substância
  • Ausência de métricas claras de sucesso
  • Preferência por soluções rápidas sobre mudanças estruturais
  • Dificuldade em sustentar projetos de longo prazo

No fundo, empresas reproduzem vícios institucionais do país. A mesma cultura que produz obras públicas inacabadas gera projetos de IA abandonados.

O fator governança

Países com democracias consolidadas apresentam taxas superiores de sucesso em implementações corporativas de IA. Não por acaso.

Onde instituições funcionam, há:

  • Cultura de accountability estabelecida
  • Processos decisórios transparentes
  • Capacidade de planejamento plurianual
  • Métricas de desempenho respeitadas

O Brasil patina justamente nesses pontos. A crise democracia brasil dos últimos anos corroeu práticas de boa governança. O efeito cascata atinge conselhos de administração e C-levels.

"Empresas que não conseguem definir o que querem alcançar não deveriam estar comprando IA. Deveriam estar consertando governança."

Quem paga a conta

No curto prazo, acionistas minoritários e consumidores. Ineficiências corporativas viram custos repassados.

No médio prazo, a competitividade nacional. Empresas brasileiras perdem terreno para concorrentes estrangeiras que implementam tecnologia com método.

No longo prazo, o próprio tecido institucional. Cada projeto fracassado reforça cultura de imediatismo e improviso.

Saídas possíveis

Ferreira sugere roteiro básico que poucas seguem:

  • Diagnóstico honesto dos processos atuais
  • Definição clara de objetivos mensuráveis
  • Pilotos pequenos antes de expansão
  • Treinamento das equipes existentes
  • Revisão trimestral com critérios objetivos

Nada revolucionário. Apenas disciplina gerencial que escasseia.

O problema é cultural. Enquanto o país valorizar atalhos sobre processos, declarações sobre entregas, aparência sobre substância, mesmo ferramentas poderosas virarão apenas mais um custo na planilha.

A IA expõe, com clareza brutal, limitações que vão além da tecnologia. Reflete deficiências na forma como brasileiros constroem instituições — públicas ou privadas.

Empresas gastam milhões perseguindo eficiência através de algoritmos. Mas eficiência exige fundações sólidas. Exige governança que funcione. Exige horizonte temporal que supere o próximo trimestre.

Sem isso, IA vira apenas o mais recente capítulo de uma velha história: a ilusão de que ferramentas modernas compensam instituições frágeis.