Hamas escolhe líder iraniano após Israel falhar em matá-lo
O homem que Israel tentou eliminar em dezembro de 2023 acaba de se tornar o líder mais poderoso do Hamas. Khalil al-Hayya, 58 anos, nascido em Gaza mas operando de Doha, venceu a disputa interna contra Khaled Mashaal e assume o comando de uma organização fragilizada militarmente, mas estrategicamente reposicionada no eixo regional.
A escolha representa mais que sucessão. É reorientação geopolítica.
O perfil do novo comando
Al-Hayya não é desconhecido. Nos últimos meses, atuou como principal negociador do Hamas nas tratativas de cessar-fogo mediadas por Qatar e Egito. Sua proximidade com o regime iraniano, porém, diferencia-o substantivamente de seu antecessor Ismail Haniyeh — assassinado em Teerã em julho de 2024 — e do rival derrotado Mashaal, considerado mais pragmático.
A tentativa israelense de eliminá-lo ocorreu em Khan Yunis, no sul de Gaza, durante operação que matou dezenas de palestinos. Al-Hayya sobreviveu. Seu irmão não.
Esse histórico pessoal importa. Líderes forjados em tentativas de assassinato tendem a adotar posturas mais inflexíveis. A dinâmica não é exclusiva do Hamas — vale para Hezbollah, para facções iraquianas, para a própria estrutura de poder iraniana.
Mashaal e a ala perdedora
Khaled Mashaal representava o que restava da tradição diplomática do Hamas. Baseado no Qatar desde 2012, liderou o grupo entre 2004 e 2017, período marcado por tentativas de aproximação com atores árabes sunitas e relativo distanciamento de Teerã.
Sua derrota sinaliza esgotamento dessa linha. Após 7 de outubro de 2023 e a subsequente destruição de grande parte da infraestrutura do Hamas em Gaza, a ala política externa perdeu credibilidade. Al-Hayya, mesmo operando de Doha, manteve vínculos mais orgânicos com a estrutura militar — o que no Hamas equivale a legitimidade.
O Irã apostou nessa transição. Fontes em Teerã indicam que a Guarda Revolucionária intensificou contatos com al-Hayya nos últimos seis meses, pavimentando sua ascensão.
Contexto regional e precedentes
A eleição ocorre em momento delicado para o "Eixo da Resistência" — denominação que agrupa Hamas, Hezbollah, milícias iraquianas e houthis iemenitas sob guarda-chuva iraniano. Israel neutralizou Hassan Nasrallah do Hezbollah em setembro de 2024. Haniyeh caiu dois meses antes. A pressão militar sobre Gaza permanece intensa.
Nesse cenário, Teerã precisa de interlocutores confiáveis. Al-Hayya preenche esse requisito. Sua nomeação também reflete cálculo interno do Hamas: após perder território e capacidade operacional em Gaza, o grupo volta-se para patrono externo capaz de garantir financiamento e rearmamento.
O precedente histórico mais próximo remonta à eleição de Yahya Sinwar para liderança em Gaza, em 2017. Sinwar também representava linha-dura, também tinha histórico de sobrevivência em prisões israelenses. Sua ascensão precedeu rearmamento significativo e culminou nos ataques de 7 de outubro.
Implicações para negociações
Paradoxalmente, al-Hayya conhece dinâmicas de negociação. Participou de todas as rodadas de conversas sobre reféns e cessar-fogo desde outubro de 2023. Mas conhecer não significa ceder.
Autoridades israelenses e americanas que lidaram com ele relatam postura inflexível em questões centrais: fim permanente de operações israelenses em Gaza, retirada completa de tropas, reconstrução sob controle palestino. Demandas maximais que refletem, agora, não apenas tática de negociação, mas orientação estratégica de quem comanda.
Para Israel, a notícia complica perspectivas de acordos duradouros. Netanyahu já declarou que eliminação da liderança do Hamas permanece objetivo militar. Com al-Hayya, esse objetivo ganha novo nome e endereço — Doha, onde autoridades qataris garantem proteção.
A questão de fundo
Organizações como Hamas não elegem líderes por carisma ou capacidade administrativa. Elegem por posicionamento no conflito de longo prazo com Israel e por alinhamento com financiadores externos.
Al-Hayya venceu porque representa endurecimento que militantes em Gaza demandam e dependência iraniana que realidade financeira impõe. Mashaal perdeu porque pragmatismo deixou de ser ativo político interno.
O ciclo se repete: Israel elimina líder, sucessor mais radical assume, espiral de violência se aprofunda. Precedentes abundam — de Sheikh Yassin a Nasrallah. A dinâmica beneficia extremos em ambos os lados, prejudica população civil, perpetua impasse que já dura décadas.
Khalil al-Hayya não muda essa equação. Apenas a personifica em sua próxima iteração.