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Guerra na Rússia: drones ucranianos atacam economia civil

Guerra na Rússia: drones ucranianos atacam economia civil
Foto: redir.folha.com.br

Oito mortos. Um armazém da Wildberries em chamas. A maior varejista online da Rússia — equivalente local da Amazon — convertida em alvo militar na madrugada de domingo.

Os drones ucranianos atravessaram a fronteira e acertaram não apenas instalações militares, mas a espinha dorsal do comércio eletrônico russo. É a guerra chegando ao cotidiano civil com precisão cirúrgica.

A Lógica da Escalada Assimétrica

O ataque representa um ponto de inflexão na estratégia ucraniana. Desde o início da invasão russa em 2022, Kiev operou sob severas restrições — impostas principalmente por Washington — sobre alvos em território russo.

Essas restrições caíram gradualmente. Primeiro, instalações militares próximas à fronteira. Depois, depósitos de combustível e pontes logísticas. Agora, infraestrutura econômica civil de alto valor simbólico.

A mensagem é clara: nenhum russo está imune às consequências da guerra que seu governo iniciou.

Wildberries e a Economia de Guerra

A escolha do alvo não é acidental. A Wildberries movimenta bilhões de dólares anualmente e emprega dezenas de milhares de russos. Fundada por Tatyana Bakalchuk — uma das mulheres mais ricas da Rússia — a empresa simboliza a capacidade de adaptação da economia russa às sanções ocidentais.

Com Amazon, eBay e outras gigantes ocidentais fora do mercado russo desde 2022, a Wildberries preencheu o vácuo. Tornou-se essencial para o consumo doméstico russo.

Atingi-la é atingir a normalidade que o Kremlin tenta manter para sua população urbana e classe média — aquela que poderia pressionar politicamente por um fim do conflito.

Precedente Perigoso

O ataque abre precedente preocupante. Se a Ucrânia considera legítimo atacar varejistas por seu papel na economia russa, Moscou pode usar a mesma lógica para justificar ataques ampliados contra infraestrutura civil ucraniana.

A distinção entre alvos militares e civis — já tênue neste conflito — torna-se ainda mais nebulosa.

Especialistas em direito internacional humanitário alertam: a erosão dessas fronteiras beneficia sempre o lado com maior poder de fogo. E esse lado não é Kiev.

O Cálculo Político Brasileiro

Para o Brasil, que mantém posição de neutralidade ativa no conflito, episódios como este complicam a diplomacia. Brasília tem defendido negociações sem pré-condições e criticado o envio de armas ocidentais à Ucrânia.

Mas ataques a alvos civis — de qualquer lado — tornam mais difícil sustentar equivalência moral entre as partes.

O Itamaraty evita condenações diretas, mas internamente cresce a percepção de que a guerra entrou em fase de exaustão mútua, onde ambos os lados recorrem a táticas cada vez mais desesperadas.

Contexto Histórico

A história das guerras modernas mostra que ataques à retaguarda civil tendem a endurecer — não enfraquecer — a resistência das populações.

O bombardeio alemão sobre Londres não quebrou a moral britânica na Segunda Guerra. O bombardeio americano sobre o Vietnã do Norte não forçou Hanói à rendição.

A aposta ucraniana é diferente: que a elite urbana russa, confrontada com inconveniências reais da guerra, pressione Putin por uma saída negociada.

É uma aposta arriscada. Pode funcionar. Ou pode consolidar o discurso do Kremlin de que a Rússia enfrenta uma ameaça existencial.

O Que Vem Pela Frente

Três cenários se desenham:

  • Escalada: Moscou responde com ataques ampliados contra infraestrutura ucraniana, aprofundando o conflito
  • Normalização: ataques mútuos a alvos econômicos tornam-se rotina, prolongando a guerra indefinidamente
  • Negociação: o custo crescente para ambas as economias abre espaço para conversas sérias de paz

O terceiro cenário parece cada vez mais distante. A lógica da guerra impõe sua própria dinâmica, resistente à racionalidade política.

Por enquanto, o que resta são oito mortos, um armazém destruído e a certeza de que esta guerra está longe do fim.