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Guerra dos chips expõe limites do presidencialismo de coalizão

Guerra dos chips expõe limites do presidencialismo de coalizão
Foto: scmp.com

As importações chinesas de chips H200 da Nvidia recomeçaram. São quantidades pequenas, produtos de segunda linha. Mas o dado revela algo maior: enquanto Washington tenta estrangular Pequim tecnologicamente, as exportações chinesas de semicondutores quase dobraram no primeiro semestre de 2024.

O confronto é direto. Estados Unidos contra China. Chips avançados de inteligência artificial versus circuitos integrados maduros para eletrônicos de consumo e automóveis.

A assimetria que Washington ignora

A Casa Branca domina os chips de IA mais avançados. A linha Blackwell da Nvidia representa o topo da cadeia. Mas Pequim encontrou seu espaço: semicondutores legados para o mercado de massa. Não é glamouroso. Funciona.

A estratégia chinesa expõe uma fragilidade estrutural dos sistemas presidencialistas de coalizão ocidentais. Políticas industriais de longo prazo exigem coordenação entre Executivo, Legislativo e setor privado por décadas. Exigem consensus que transcenda ciclos eleitorais.

O presidencialismo de coalizão americano não consegue entregar isso. Biden lança o CHIPS Act. O Congresso aprova com emendas que diluem objetivos. Empresas negociam subsídios caso a caso. A cada quatro anos, tudo pode mudar.

Pequim joga outro jogo

A China opera sob lógica diferente. O Partido Comunista define metas tecnológicas em planos quinquenais. O Estado mobiliza capital. Empresas estatais e privadas se alinham. Não há alternância de poder que redesenhe prioridades a cada mandato.

Não se trata de defender o modelo chinês. Trata-se de reconhecer que competição tecnológica de longo prazo favorece sistemas com capacidade de planejamento estratégico contínuo.

Enquanto isso, o presidencialismo de coalizão europeu replica o problema americano em escala menor. Bruxelas anuncia o European Chips Act. Estados-membros competem por fábricas. Coalizões governamentais mudam. Políticas industriais perdem fôlego.

O precedente histórico importa

A Guerra Fria oferece paralelo instrutivo. Washington venceu Moscou não apenas por superioridade tecnológica, mas porque conseguiu manter coalizões transatlânticas por cinco décadas. Conseguiu porque a ameaça soviética era existencial o suficiente para unificar democratas e republicanos, conservadores e trabalhistas europeus.

A ameaça chinesa não produz o mesmo efeito. É difusa. É econômica, não militar. Pequim compra treasuries americanos enquanto fabrica chips. A coalizão anti-China é instável.

Trump impôs tarifas. Biden manteve algumas, removeu outras. O Congresso oscila entre sanções e protecionismo seletivo. Empresas americanas fazem lobby para continuar vendendo para a China, mas com restrições que não as prejudiquem muito.

Multinacionalização como resposta

O artigo original do South China Morning Post argumenta que Pequim precisa de estratégia multinacional para vencer a guerra dos chips. A análise é correta, mas incompleta.

China já executa essa estratégia. Investe em fábricas no Sudeste Asiático. Compra participações em empresas de semicondutores europeias. Fornece chips maduros para montadoras globais. Contorna sanções através de terceiros países.

O problema é do Ocidente. Como sistemas baseados em presidencialismo de coalizão competem com planejamento centralizado de longo prazo?

A resposta tradicional é: através de inovação privada e mercados livres. Funcionou no século XX. Pode não funcionar no XXI.

Três caminhos possíveis

Primeiro: Ocidente aceita derrota parcial. Domina chips avançados, cede chips maduros para China. Resultado: dependência mútua assimétrica.

Segundo: democracias encontram mecanismos para blindar políticas industriais de oscilações eleitorais. Criam agências autônomas com mandatos longos, como bancos centrais. Difícil, mas não impossível.

Terceiro: confronto se intensifica até ruptura completa. Duas cadeias de suprimento paralelas. Dois blocos tecnológicos. Nova Guerra Fria, desta vez com chips em vez de mísseis.

O mais provável é combinação instável dos três. Enquanto isso, as importações chinesas de H200 continuam. Em pequenas quantidades. Por enquanto.