Política

Governo fecha o cerco contra mercado paralelo de ingressos

Governo fecha o cerco contra mercado paralelo de ingressos
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

O Ministério da Justiça acaba de abrir um processo administrativo que pode redefinir o mercado de revenda de ingressos no Brasil. O alvo é a Viagogo, plataforma internacional que opera no país sem deixar claro aos consumidores que vende entradas de segunda mão — muitas vezes com sobrepreços que chegam a 300%.

A multa diária de R$ 100 mil por descumprimento não é o único elemento relevante. O precedente jurídico em construção aqui interessa a todo o setor de entretenimento brasileiro, do futebol aos festivais de música.

O que está em jogo

A Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor (Senacon) identificou práticas que configuram o que especialistas chamam de "confusão proposital". Sites de revenda se apresentam visualmente como vendedores primários. O consumidor clica pensando comprar direto do evento. Descobre tarde demais que pagou o triplo a um intermediário.

Ricardo Morishita, secretário Nacional do Consumidor, foi direto: as investigações mostraram informações insuficientes sobre o caráter de revenda. A plataforma induz o consumidor ao erro. É propaganda enganosa mascarada de marketplace.

A determinação é clara. A Viagogo precisa divulgar em todos os ambientes acessíveis uma mensagem explícita: "Este é um site de revenda de ingressos".

Contexto político da regulação

Esta não é uma ação isolada. O governo federal intensificou nos últimos meses a fiscalização sobre mercados digitais que operam em zonas cinzentas da legislação brasileira.

A Senacon abriu apurações contra anúncios de casas de apostas na Copa do Mundo. Articulou com a Justiça ações contra organizações criminosas no setor de combustíveis. Criou um escritório antifacção no Rio de Janeiro integrando forças estaduais e federais.

O padrão é evidente. Brasília percebeu que plataformas digitais exploram lacunas regulatórias para lucrar à margem da lei. A resposta é administrativa, não legislativa. Usa-se o arcabouço existente do Código de Defesa do Consumidor com interpretação expansiva.

O mercado secundário sob pressão

O mercado de revenda de ingressos movimenta globalmente bilhões de dólares. No Brasil, cresceu exponencialmente com a digitalização. Plataformas internacionais entraram no país sem adaptar práticas às exigências locais de transparência.

A Viagogo, especificamente, já enfrentou processos na Europa e nos Estados Unidos por práticas similares. A empresa alega oferecer um serviço legítimo de marketplace. Mas autoridades de diversos países questionam a linha entre intermediação e especulação predatória.

Para o consumidor brasileiro, o problema é concreto. Ingressos para shows internacionais ou finais de campeonatos somem em minutos. Reaparecem em sites de revenda com preços estratosféricos. Quem quer ir ao evento não tem escolha senão pagar.

Precedente e consequências

O processo contra a Viagogo testa os limites da regulação administrativa num setor que a legislação não acompanhou. O Código de Defesa do Consumidor é de 1990. A internet comercial no Brasil tem 25 anos. Marketplaces internacionais de ingressos são fenômeno da última década.

A Senacon aposta que transparência obrigatória mata o modelo de negócio. Se o consumidor souber desde o primeiro clique que está num site de revenda, comparará preços. Buscará alternativas. A vantagem competitiva baseada em confusão desaparece.

Outros países experimentaram caminhos diferentes. A França proibiu revenda acima do valor de face. O Reino Unido exige identificação nominal em ingressos para eventos específicos. Os Estados Unidos deixaram o mercado livre, com resultados controversos.

O Brasil escolheu a via da informação compulsória. É uma aposta na racionalidade do consumidor. Se funcionar, o modelo se estenderá a outros setores digitais onde a confusão é estratégia comercial.

O que vem pela frente

A Viagogo tem prazo para se adequar ou recorrer. A multa diária de R$ 100 mil é pesada o suficiente para forçar negociação. Mas a empresa pode judicializar, argumentando excesso regulatório ou violação à livre iniciativa.

O desfecho interessa a todo o ecossistema de eventos. Produtores, casas de show, clubes de futebol e artistas perdem receita para o mercado secundário. Uma regulação eficaz pode reequilibrar a distribuição de valor.

Para o governo, é teste de capacidade de regular a economia digital sem criar amarras burocráticas. O desafio é proteger o consumidor sem inviabilizar inovação legítima. A fronteira é tênue. Este processo ajudará a demarcá-la.