Gás contra vento: coalizão no Senado força térmicas e ameaça renováveis
R$ 480 milhões. Este é o valor que o setor de energia renovável pode perder até 2032 se um projeto de lei em tramitação no Senado Federal for aprovado. A conta foi feita pela Aurora Energy Research e divulgada pela Abegás — e revela como a mecânica do presidencialismo de coalizão brasileiro está colocando gás natural contra vento e sol.
O PL prevê a contratação compulsória de 2,5 gigawatts em novas termelétricas a gás com alta inflexibilidade operacional. Na prática, significa usinas que precisam funcionar mesmo quando não há necessidade energética, empurrando para fora do sistema a geração de fontes limpas como eólica e solar.
O jogo político por trás do quilowatt
A proposta expõe uma tensão clássica do sistema político brasileiro. De um lado, o governo federal acena com compromissos climáticos internacionais e expansão renovável. De outro, parlamentares ligados ao setor de gás — com forte presença em estados produtores como Rio de Janeiro e Amazonas — pressionam por garantias de mercado para térmicas.
O resultado é uma legislação que, segundo as projeções técnicas, elevará em 12% o chamado curtailment de renováveis. O termo designa quando usinas eólicas e solares são forçadas a desligar ou reduzir produção porque a rede está saturada — não por falta de vento ou sol, mas por excesso de oferta inflexível de outras fontes.
Quem paga a conta
As perdas não são abstratas. Investidores em parques eólicos e solares operam com contratos de longo prazo e projeções de geração. Quando o sistema corta sua produção, a receita cai. Os R$ 480 milhões estimados representam margem operacional perdida, capacidade ociosa e, no limite, risco de inadimplência em financiamentos.
Para o consumidor final, a equação também complica. Térmicas a gás são mais caras que renováveis. Forçar sua entrada no sistema — mesmo quando há oferta limpa disponível — pressiona tarifas para cima. É o paradoxo brasileiro: temos matriz privilegiada por natureza, mas escolhas políticas encarecem a conta de luz.
A lógica da coalizão
A tramitação do PL ilustra como funciona o presidencialismo de coalizão no setor energético. Bancadas regionais negociam apoio legislativo em troca de medidas que beneficiem suas bases eleitorais. O gás natural, concentrado em poucos estados, organiza lobby mais coeso que o setor renovável, pulverizado em centenas de municípios.
Tecnicamente, o argumento pró-térmicas se apoia na segurança energética. Gás pode ser despachado sob demanda, diferente de sol e vento. O contra-argumento: o Brasil já possui reservatórios hidrelétricos que cumprem essa função, e baterias estão cada vez mais viáveis economicamente.
Precedente perigoso
A aprovação do PL criaria um precedente arriscado. Outros setores com capacidade de articulação política poderiam buscar legislações similares, forçando contratação independente de mérito econômico ou ambiental. A matriz elétrica brasileira, considerada referência mundial em renovação, viraria refém de negociações parlamentares casuísticas.
Para o setor renovável, a saída passa por mobilização equivalente. Empresas, associações e fundos de investimento precisam traduzir argumentos técnicos em pressão política efetiva. O jogo não se joga apenas com dados de eficiência — se joga nos gabinetes de Brasília.
O que está em jogo
Até 2032, o Brasil deve adicionar dezenas de gigawatts em capacidade renovável. A pergunta é se essa energia será efetivamente utilizada ou se ficará ociosa enquanto térmicas mais caras e poluentes rodam por imposição legal.
A Aurora Energy Research não faz militância — faz modelagem. Seus números projetam consequências de escolhas políticas. E essas escolhas, neste momento, estão sendo feitas no Senado Federal, onde a dinâmica de coalizão pode pesar mais que a curva de custo marginal.
O PL das térmicas é teste para a transição energética brasileira. Mostra se políticas públicas seguirão racionalidade econômica e climática ou se cederão à fragmentação de interesses que caracteriza nosso arranjo institucional.
Por ora, o gás está ganhando. O vento, perdendo. E a conta, como sempre, chegará para quem paga luz no fim do mês.