Óleo & Gás

Copa do Mundo expõe fragilidade energética e paralisia política

Às 18h45 de uma terça-feira de julho, o Operador Nacional do Sistema Elétrico registrou a quinta oscilação severa de carga em menos de uma semana. O país assistia aos jogos da Copa do Mundo. O sistema elétrico brasileiro tremia.

O ONS encerrou em 21 de julho de 2026 a operação especial montada para a Copa. O balanço oficial celebra a estabilidade mantida. Mas os bastidores revelam uma verdade incômoda: o Brasil precisou desligar fontes renováveis repetidamente para evitar colapsos durante as partidas.

O que significa curtailment e por que ele importa

Curtailment é o termo técnico para desconectar usinas da rede propositalmente. Durante a Copa, o ONS forçou parques eólicos e solares a pararem de gerar energia em momentos críticos.

A razão é simples: quando milhões de televisores ligam e desligam simultaneamente, o sistema oscila. Fontes renováveis respondem lentamente. Termelétricas a gás reagem mais rápido.

O resultado? Desperdiçamos energia limpa e barata para queimar combustível fóssil caro e poluente.

A conta que ninguém apresentou

O ONS não divulgou o volume total de energia renovável desperdiçada. Estimativas de mercado apontam para mais de 2.000 megawatts médios em curtailment durante os 18 dias de operação especial.

Isso equivale a desligar duas usinas de Belo Monte. Ou deixar 4 milhões de residências sem energia por três semanas.

A conta dessa ineficiência não aparece na tarifa imediatamente. Mas ela existe. Investidores em renováveis deixam de receber. Consumidores pagam térmicas mais caras. O país emite carbono desnecessário.

O que isso tem a ver com reforma política

Tudo.

O setor elétrico brasileiro opera sob regras desenhadas nos anos 1990, remendadas dezenas de vezes desde então. Cada remendo foi fruto de negociação política emergencial.

Modernizar o sistema exige legislação complexa. Requer consenso no Congresso. Demanda que parlamentares enfrentem lobbies poderosos — de distribuidoras, geradoras térmicas, Estados produtores de gás.

Isso não acontece porque o sistema político brasileiro não consegue produzir reformas estruturantes. A mesma paralisia que impede reforma tributária, administrativa e previdenciária consistentes também trava o setor elétrico.

A Copa expôs o sintoma. A causa é mais profunda.

Precedentes que assustam

Em 2001, o Brasil sofreu racionamento de energia. A causa oficial foi falta de chuvas. A causa real foi ausência de planejamento e investimento.

Hoje a situação é diferente. Temos capacidade instalada suficiente. O problema agora é coordenar fontes intermitentes com demanda volátil.

Mas o padrão se repete: problemas técnicos conhecidos, soluções disponíveis, implementação travada por inércia político-institucional.

A diferença é que em 2001 faltou energia para o chuveiro. Em 2026, conseguimos manter as luzes acesas durante a Copa — mas a que custo operacional e ambiental?

Quem perde, quem ganha

Investidores em renováveis perdem receita com curtailment. Consumidores pagam térmicas caras no lugar de eólicas e solares baratas.

Operadores de termelétricas a gás ganham. Distribuidoras ganham com sistema ineficiente que permite repassar custos.

O país perde competitividade. Indústrias brasileiras pagam energia mais cara que concorrentes internacionais.

O silêncio eloquente

O Ministério de Minas e Energia não comentou os números de curtailment. O ONS limitou-se a declarar missão cumprida.

No Congresso, nenhum parlamentar questionou os custos ocultos da operação especial. A imprensa generalista cobriu a Copa. Poucos notaram o sistema elétrico.

Esse silêncio é político. Reconhecer o problema exigiria apresentar soluções. Soluções exigem enfrentar interesses. Enfrentar interesses exige capital político.

Capital político que nenhum ator relevante quer gastar com reforma do setor elétrico quando há eleições se aproximando.

A Copa acabou. Os jogos terminaram. O sistema se estabilizou.

Mas o problema permanece, invisível, acumulando custos, esperando a próxima crise para ressurgir.