Política

Fogo recorrente devasta 64% das áreas queimadas no Brasil

Fogo recorrente devasta 64% das áreas queimadas no Brasil
Foto: Metrópoles

Dois terços do território brasileiro que já pegou fogo voltou a queimar. O dado, revelado pelo MapBiomas nesta terça-feira (21), expõe um padrão que transcende governos e ciclos políticos: a recorrência das queimadas como fenômeno estrutural.

Desde 1985, 64% da área queimada no país ardeu mais de uma vez. A estatística não é mero acidente climático. É sintoma de um modelo de ocupação territorial que persiste há décadas, atravessando diferentes arranjos de poder e projetos de desenvolvimento.

A queda enganosa de 2025

O Relatório Anual do Fogo aponta redução de 31% na área queimada em 2025. O número celebrável esconde, porém, a dinâmica perversa: as mesmas regiões voltam a queimar, ciclicamente.

Não se trata de avanço sobre novas fronteiras. É a destruição reiterada dos mesmos biomas, das mesmas comunidades, dos mesmos ecossistemas já fragilizados.

A repetição revela falha sistêmica de fiscalização e ausência de política preventiva consistente. Queima-se porque não há custo efetivo. Queima-se porque funciona. Queima-se porque sempre se queimou.

O conflito invisível

Por trás dos números, um embate silencioso: expansão agropecuária versus capacidade estatal de regulação. As queimadas recorrentes sinalizam qual lado historicamente prevalece.

A geografia do fogo não é aleatória. Concentra-se onde a fronteira agrícola pressiona, onde a fiscalização fraqueja, onde o poder judiciário análise casos com lentidão crônica.

Processos ambientais tramitam anos. Multas prescritas. Liminares que suspendem punições. A impunidade retroalimenta a recorrência.

Precedente histórico

O padrão não é novo. Desde a década de 1970, políticas de ocupação da Amazônia e do Cerrado incentivaram queimadas como método de limpeza. A lógica persiste, agora sem incentivo oficial, mas com inércia institucional.

O MapBiomas documenta quatro décadas dessa trajetória. A base de dados, construída com imagens de satélite e tecnologia de ponta, oferece ao poder público instrumento que não existia em 1985: informação precisa, georeferenciada, incontestável.

Mesmo assim, o ciclo continua. A recorrência de 64% indica que a informação disponível não se traduziu em política efetiva.

Consequências políticas

A revelação do MapBiomas chega em momento crítico. O debate ambiental polariza-se entre desenvolvimentistas e conservacionistas, mas os dados transcendem essa dicotomia simplista.

Queimadas recorrentes destroem não apenas biodiversidade. Comprometem produtividade futura do solo, qualidade do ar, saúde pública, acordos comerciais internacionais.

O custo econômico das queimadas repetidas permanece subcalculado. Não entra no PIB. Não aparece em planilhas ministeriais. Mas corrói o capital natural que sustenta a economia real.

A responsabilidade institucional

O judiciário, ator central no desenrolar desse drama, enfrenta desafio estrutural: processar conflitos ambientais com velocidade incompatível com a urgência ecológica.

Enquanto recursos tramitam, o fogo retorna. A mesma área que gerou processo judicial em 2010 volta a queimar em 2015, 2020, 2025. A Justiça corre atrás de cinzas.

A análise dos dados do MapBiomas deveria provocar revisão profunda nos protocolos de julgamento de crimes ambientais. A recorrência é prova de falha sistêmica, não de casos isolados.

Perspectivas sombrias

A redução de 31% em 2025 pode ser flutuação estatística, não tendência consolidada. Sem mudança estrutural nos mecanismos de fiscalização e punição, o padrão de 64% de recorrência tende a persistir.

O MapBiomas fornece o diagnóstico. A academia valida. A sociedade civil cobra. Mas a engrenagem política que transforma dados em ação permanece travada.

Enquanto isso, o Brasil queima. E requeima. E requeima de novo.