Política

Flávio Bolsonaro sem vice expõe crise do presidencialismo de coalizão

Flávio Bolsonaro sem vice expõe crise do presidencialismo de coalizão
Foto: Metrópoles

Faltam 18 meses para a eleição presidencial de 2026. Flávio Bolsonaro ainda não tem vice. Não tem palanques estaduais sólidos. E enfrenta resistência dentro da própria família.

O cenário expõe uma verdade desconfortável para a oposição: enquanto o senador tenta construir uma candidatura viável, Lula já opera a máquina clássica do presidencialismo de coalizão brasileiro — distribuindo ministérios, liberando emendas, costurando alianças regionais.

O problema não é só o vice

A dificuldade de Flávio em definir um nome para a vice-presidência vai além da escolha pessoal. Reflete a fragmentação terminal do bolsonarismo pós-2022.

Governadores de direita mantêm distância calculada. Partidos do Centrão ensaiam namoro com o Planalto. E o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, inelegível, não consegue transferir capital político ao filho primogênito.

O presidencialismo de coalizão brasileiro sempre exigiu duas competências simultâneas: carisma eleitoral e habilidade negociadora. Bolsonaro pai tinha o primeiro, mas desprezava o segundo. Flávio tenta demonstrar capacidade de articulação, mas não herdou o magnetismo paterno junto às massas.

Lula joga o jogo que conhece

Do outro lado, Lula repete a cartilha que domina há quatro décadas. Geraldo Alckmin na vice foi o primeiro movimento. A composição ministerial com nove partidos, o segundo. A distribuição de cargos e recursos para governadores, o terceiro.

É o presidencialismo de coalizão em sua forma mais pura: trocar poder presente por sustentação eleitoral futura.

A estratégia não é elegante. Mas é eficiente. E está anos-luz à frente do que a direita consegue organizar.

O racha familiar que importa

As divergências entre Flávio e o clã Bolsonaro não são apenas ruído. São sintoma de um problema estrutural da direita brasileira: a incapacidade de institucionalizar-se.

Movimentos políticos baseados em figuras carismáticas enfrentam sempre a mesma encruzilhada na sucessão. Quem herda o legado? Como se transfere legitimidade?

O PT resolveu isso nos anos 1990, criando estruturas partidárias sólidas. O bolsonarismo sequer tentou. Permaneceu refém da dinâmica familiar e de alianças voláteis com legendas de aluguel.

Agora a conta chega.

Estados sem palanque

A ausência de governadores aliados dispostos a emprestar estrutura estadual para Flávio é outra face do mesmo problema.

No presidencialismo de coalizão brasileiro, governadores são peças-chave. Controlam máquinas partidárias locais, têm acesso a recursos, mobilizam bases eleitorais. Sem eles, qualquer candidatura presidencial fica aleijada.

Lula tem Elmano de Freitas no Ceará, Jerônimo Rodrigues na Bahia, Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte. Flávio tem... promessas vagas de apoio.

Tarcísio de Freitas, em São Paulo, joga seu próprio jogo. Ronaldo Caiado, em Goiás, idem. Romeu Zema, em Minas, tornou-se irrelevante nacionalmente.

O atraso histórico da oposição

Há um padrão reconhecível na política brasileira recente. Oposições que vencem eleições presidenciais começam a se estruturar pelo menos dois anos antes do pleito.

Foi assim com Collor em 1989. Com FHC em 1994. Com Lula em 2002. Com Bolsonaro em 2018.

Todos chegaram ao ano eleitoral com alianças definidas, palanques estaduais conquistados, vices escolhidos.

Flávio está em maio de 2025 sem nada disso. E o calendário não perdoa.

Coalizão ou derrota

O presidencialismo de coalizão brasileiro tem defeitos conhecidos. Promove governabilidade às custas de coerência programática. Transforma política em negociação permanente de cargos e recursos. Dilui responsabilidades.

Mas é o sistema que existe. E quem não souber jogá-lo, perde.

Flávio Bolsonaro enfrenta agora a prova definitiva: conseguirá construir uma coalizão competitiva ou repetirá o erro paterno de desprezar a política institucional?

A resposta virá nos próximos meses. Mas o relógio já está correndo contra ele.