Política

Flávio Bolsonaro compara preços e ataca poder de compra no Brasil

Flávio Bolsonaro compara preços e ataca poder de compra no Brasil
Foto: Poder360

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou um vídeo gravado em supermercado declarando que "o poder de compra do brasileiro acabou". A gravação compara preços de produtos básicos entre 2019 — último ano do governo de seu pai, Jair Bolsonaro — e os valores atuais, sob gestão Lula.

A iniciativa não é espontânea. Representa movimento coordenado da oposição para recuperar terreno eleitoral pelo flanco mais vulnerável de qualquer governo: o bolso do eleitor.

A estratégia do carrinho de compras

Flávio escolheu o cenário com precisão cirúrgica. Supermercados são espaços de experiência cotidiana universal. Ali, a teoria econômica vira conta na cabeça do consumidor. A inflação deixa de ser índice e vira drama doméstico.

O formato lembra táticas clássicas de comunicação política americana. Candidatos republicanos usam variações desse método desde os anos 1980. A inovação aqui está na antecipação: estamos a quase dois anos das eleições presidenciais.

Isso diz algo importante sobre o cenário que se desenha. A direita brasileira aprendeu com 2022 que precisa antecipar narrativas. Não pode mais reagir. Precisa estabelecer o campo de batalha.

Os números por trás da retórica

A comparação de Flávio tem fundamento factual, ainda que seletivo. Entre 2019 e 2025, a inflação acumulada supera 35%. O salário mínimo cresceu, mas abaixo desse índice em termos reais.

O problema metodológico está na escolha da data-base. O ano de 2019 antecede a pandemia de Covid-19, que destruiu cadeias de suprimento globais e disparou preços de alimentos no mundo inteiro. Nenhum governo ficou imune. Biden perdeu a eleição americana de 2024 essencialmente por isso.

Mas política não é academia. A pergunta que importa eleitoralmente não é "por quê?", mas "quem paga a conta?".

O precedente Dilma

A estratégia tem precedente histórico recente no Brasil. Dilma Rousseff caiu em 2016 principalmente pela percepção de perda de poder aquisitivo. A inflação de 2015 foi de 10,67%. As ruas lotaram. O impeachment ganhou tração popular.

Lula conhece esse filme. Governou de 2003 a 2010 com inflação controlada e economia crescente. Sua força eleitoral sempre esteve ancorada na percepção de melhora material concreta. Quando essa percepção vira, o petismo sangra.

A movimentação de Flávio indica que o bolsonarismo identificou a brecha. Vai martelar nela até 2026.

Quem contra quem

O conflito que se estabelece é simples: Bolsonaro como gestor da estabilidade versus Lula como responsável pelo caos inflacionário. Essa narrativa ignora variáveis macroeconômicas globais, mas tem apelo direto.

Para o Planalto, a resposta não pode ser apenas técnica. Gráficos do IBGE não convencem quem sente o preço no caixa. É necessário construir contra-narrativa igualmente emocional.

O governo aposta na queda da taxa Selic e na retomada do crescimento. Mas essas variáveis demoram a chegar na percepção popular. A inflação de alimentos é sentida semanalmente.

O que isso significa

Primeiro: a campanha de 2026 começou. A oposição definiu o tema central — economia doméstica.

Segundo: o bolsonarismo tenta se reposicionar. Quer deixar de ser apenas anti-sistema e virar alternativa pragmática. "Funcionava antes, pode funcionar de novo."

Terceiro: Lula precisa de vitórias concretas no bolso do eleitor. Programas sociais ajudam, mas não bastam. É necessário controlar preços de alimentos.

A batalha de 2026 será travada entre prateleiras de supermercado. Flávio Bolsonaro acaba de plantar a primeira bandeira no território. O governo tem tempo para responder, mas o relógio corre contra quem está no poder.

Resta saber se Lula ainda tem a capacidade de transformar dificuldade econômica em capital político, como fez tantas vezes. Ou se, desta vez, a conta chegou alta demais.