Flávio Bolsonaro ataca poder de compra e mira coalizão presidencial
Flávio Bolsonaro entrou num supermercado com o celular na mão. Filmou prateleiras. Comparou preços de 2019 com os atuais. A conclusão veio direta: "O poder de compra do brasileiro acabou".
O vídeo do senador não é apenas queixa econômica. É peça de artilharia política. Marca o retorno da oposição bolsonarista ao terreno que sempre dominou: a narrativa do bolso vazio.
O timing não é acidental
A gravação circula enquanto a coalizão presidencial negocia reformas estruturais no Congresso. O governo Lula depende de partidos do Centrão para aprovar medidas fiscais impopulares. Qualquer ruído sobre custo de vida complica essa equação.
Flávio sabe disso. Seu pai governou entre 2019 e 2022, período que o vídeo usa como parâmetro. A comparação ignora variáveis: pandemia global, guerra na Ucrânia, choques de oferta em cadeias produtivas. Mas isso não importa para o eleitor no corredor do mercado.
A estratégia é simples. Criar contraste. Governo Bolsonaro versus governo Lula. Passado idealizado contra presente sentido no dia a dia.
Inflação como arma eleitoral
A inflação acumulada desde 2019 corroeu salários. Isso é fato. O IPCA subiu mais de 30% no período. Alimentos básicos dispararam. Carne, óleo, arroz — todos mais caros.
Mas a narrativa omite contexto. Em 2022, último ano Bolsonaro, a inflação fechou em 5,79%. O descontrole de preços começou antes de Lula voltar. A transição de governos não apaga crises anteriores.
Flávio constrói memória seletiva. Escolhe baseline favorável. Ignora turbulências do próprio governo paterno. Apresenta solução inexistente: voltar a 2019.
Pressão sobre o Centrão
A ofensiva tem alvo secundário: os partidos que sustentam Lula. PP, Republicanos, União Brasil — legendas que já foram base bolsonarista. Agora integram coalizão presidencial.
O vídeo funciona como recado. Lembra esses partidos que existe vida fora do Planalto. Que 2026 se aproxima. Que o eleitor conservador, sensível a pautas econômicas, pode cobrar alianças inconvenientes.
É pressão calculada. Não visa derrubar o governo agora. Visa fragilizar apoios futuros. Minar consensos antes que se solidifiquem.
Precedente conhecido
A tática não é nova. Dilma Rousseff caiu em 2016 após anos de desgaste econômico. A inflação corroendo renda foi combustível central. A oposição de então martelou supermercados, contas de luz, desemprego.
Bolsonaro usou o mesmo manual contra adversários. Agora seu filho replica. A diferença está no contexto institucional. Em 2016, havia impeachment em curso. Hoje, há eleições distantes mas já no radar.
O bolsonarismo aprendeu a usar recessos entre pleitos. Mantém narrativa ativa. Ocupa espaço midiático com baixo custo. Um vídeo de celular alcança milhões. Não precisa de palanque oficial.
Governo refém do carrinho de compras
Para o Planalto, o desafio é duplo. Primeiro, conter inflação sem desacelerar economia. Segundo, disputar narrativa sobre quem é responsável.
A coalizão presidencial precisa de aprovação popular para blindar-se. Mas inflação de alimentos não espera consenso político. Age diretamente na percepção de governo.
Partidos aliados percebem o risco. Começam a calibrar discurso. Defendem Lula em plenário, mas evitam vincular imagem a preços altos nas ruas.
Essa dança será recorrente até 2026. Cada ida ao supermercado vira teste para coalizão presidencial.
O que vem pela frente
Flávio Bolsonaro testou estratégia. Se funcionar — e métricas de engajamento indicam que sim — outros seguirão. Senadores, deputados, governadores. Todos com celulares. Todos com prateleiras por perto.
O governo precisará de mais que bons indicadores macroeconômicos. Precisará de respostas que caibam em vídeos de um minuto. Que alcancem o eleitor antes que a oposição o convença do contrário.
A disputa de 2026 começa agora. No corredor do supermercado. Com Flávio filmando.