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EUA e Irã em guerra total: o fracasso da coalizão Biden

EUA e Irã em guerra total: o fracasso da coalizão Biden
Foto: timesofisrael.com

O Irã declarou estar em "guerra total" contra os Estados Unidos. A frase veio de autoridades iranianas enquanto mediadores internacionais tentam costurar uma trégua de dez dias entre Teerã e Washington. O Pentágono, paralelamente, movimenta equipamento militar adicional para a região.

O anúncio expõe o colapso da arquitetura diplomática que a administração Biden tentou construir no Oriente Médio desde 2021. Aquela coalizão informal — que buscava isolar o Irã através de acordos com Israel, Arábia Saudita e Emirados — não impediu a escalada. Falhou.

A geometria do conflito

De um lado: Estados Unidos, Israel, monarquias do Golfo. Do outro: Irã, suas milícias no Iraque, Síria, Iêmen e Líbano. No meio: civis palestinos, libaneses e sírios pagando o preço de uma guerra por procuração que agora ameaça se tornar direta.

O gabinete de segurança israelense está reunido para avaliar respostas. Fontes em Washington confirmam baixas americanas não divulgadas oficialmente — soldados feridos em ataques de drones iranianos no Iraque e na Síria nas últimas semanas. O Pentágono negou comentar números específicos.

Precedente perigoso

A última vez que Irã e Estados Unidos estiveram tão próximos de confronto direto foi em janeiro de 2020. Trump havia ordenado o assassinato do general Qassem Soleimani. Teerã respondeu com mísseis balísticos contra bases americanas no Iraque. Dezenas de soldados sofreram traumatismo craniano. Ambos os lados recuaram.

Desta vez, o contexto é mais volátil. Israel bombardeia o Líbano diariamente. Os houthis do Iêmen — apoiados pelo Irã — atacam navios comerciais no Mar Vermelho. Milícias pró-iranianas no Iraque lançam drones contra bases americanas com frequência semanal. A geometria da contenção se desfez.

A proposta de trégua de dez dias, articulada por mediadores europeus e árabes, busca criar espaço para negociações indiretas. A ideia: pausar ataques de milícias iranianas em troca de redução de bombardeios israelenses no Líbano. Mas nenhum lado confirmou aceitação.

A fragilidade da coalizão americana

O problema estratégico de Washington é duplo. Primeiro: sua coalizão regional é instável. A Arábia Saudita recusa apoio explícito a operações contra o Irã. Os Emirados mantêm canais comerciais abertos com Teerã. Apenas Israel está disposto a confronto total — e isso complica, não facilita, a posição americana.

Segundo: dentro dos Estados Unidos, não há consenso sobre escalada militar no Oriente Médio. O Congresso está dividido. Republicanos pressionam por ação mais dura contra o Irã. Democratas temem repetir os erros do Iraque em 2003. Biden governa sem maioria clara no Legislativo — um presidencialismo sem coalizão sólida para sustentar guerra prolongada.

Historicamente, presidentes americanos precisam de apoio doméstico robusto para conflitos externos. Bush pai tinha coalizão bipartidária para a primeira Guerra do Golfo. Bush filho construiu maioria no Congresso para invadir o Iraque — maioria que depois se dissolveu quando a ocupação fracassou. Biden não tem nem uma coisa nem outra.

O que vem agora

Três cenários se desenham. Primeiro: a trégua funciona, abre canal de negociação, ambos os lados recuam. Probabilidade baixa — nenhum ator regional tem incentivo imediato para desescalar.

Segundo: escalada controlada. Estados Unidos e Irã trocam ataques limitados através de procuradores, ninguém cruza linhas vermelhas explícitas, o conflito se arrasta por meses. Este é o cenário mais provável. É também o mais custoso a longo prazo.

Terceiro: confronto direto. Irã ataca alvos americanos ou israelenses de forma que exija resposta massiva. Estados Unidos bombardeiam instalações nucleares iranianas. Israel invade sul do Líbano. Guerra regional plena.

A declaração iraniana de "guerra total" não é ainda guerra total. É postura. Mas posturas têm consequências. Quando retórica encontra movimentação militar real — e Washington está enviando destroyers e baterias antimísseis para o Golfo —, acidentes acontecem. Acidentes viram pretextos. Pretextos viram guerras.

Biden enfrenta agora o dilema clássico do presidencialismo americano em crise externa: precisa de coalizão doméstica para sustentar ação militar, mas ação militar imediata não permite tempo para construir coalizão. A fragilidade política interna se traduz em fragilidade estratégica externa.

A proposta de trégua é menos sobre paz e mais sobre ganhar tempo. Tempo para o Irã avaliar capacidade militar americana. Tempo para Washington costurar apoios no Congresso. Tempo para Israel decidir se quer guerra sozinho ou com americanos ao lado.

Dez dias podem ser muito pouco. Ou tempo demais.