Economia

Etanol despenca em 17 estados: disputa regulatória se acirra

O preço do etanol caiu em 17 estados brasileiros na última semana. A média nacional permaneceu estável em R$ 3,31 por litro. Mas os números da Agência Nacional do Petróleo (ANP) escondem uma guerra silenciosa.

De um lado, usinas do Centro-Sul pressionadas pela entressafra. Do outro, distribuidoras que controlam a precificação nas bombas. No meio, o consumidor — e uma regulação que falha em arbitrar o conflito.

O Mapa da Volatilidade

Seis estados registraram alta nos preços. O Distrito Federal também. A contradição revela o caráter regional de uma política energética que deveria ser nacional.

Em oito estados e no DF, o etanol ficou mais vantajoso que a gasolina — quando se considera o rendimento de 70% do biocombustível. São Paulo, coração da produção sucroalcooleira, lidera as quedas. Mato Grosso do Sul e Goiás seguem a tendência.

No Nordeste, o movimento é inverso. Bahia, Pernambuco e Ceará viram preços subirem. A explicação está na logística. E na ausência de instrumentos federais eficazes para equilibrar a oferta.

Precedente Histórico e Falha Regulatória

Não é a primeira vez. Entre 2018 e 2022, o etanol oscilou 47% em períodos de entressafra. A ANP registrou. Nada fez.

A agência reguladora atua como notário de preços. Coleta dados, publica relatórios, arquiva processos. Não intervém quando a concentração de mercado distorce a concorrência. Não propõe mecanismos de estabilização quando a sazonalidade penaliza produtores e consumidores.

O poder judiciário analisa desde 2019 um conjunto de ações movidas por associações de usineiros contra grandes distribuidoras. Alegação: cartelização na formação de preços. As investigações avançam em ritmo glacial. Enquanto isso, a volatilidade continua.

Quem Ganha, Quem Perde

Usinas pequenas e médias sofrem. Margens apertadas pela queda nos preços não compensam o aumento de volume. Muitas operam no vermelho desde março.

Distribuidoras preservam rentabilidade. O spread entre o preço de compra nas usinas e o de venda nas bombas aumentou 8% no último trimestre, segundo dados do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

O consumidor vê vantagem imediata. Mas temporária. A concentração no setor de distribuição — quatro empresas controlam 62% do mercado nacional — impede que quedas estruturais se consolidem.

A Dimensão Política

O etanol carrega simbolismo político desde o Proálcool dos anos 1970. Representa autonomia energética, matriz limpa, emprego no interior.

Mas o modelo perdeu coerência. A política energética brasileira abandonou o planejamento de longo prazo. Subsiste uma regulação frouxa que beneficia concentração oligopolística.

Estados produtores pressionam por intervenção federal. Estados consumidores resistem a subsídios. O Congresso debate há três anos um marco regulatório para biocombustíveis. O projeto dorme na Câmara.

Enquanto isso, a ANP divulga tabelas semanais. E a oscilação de preços se repete, previsível como a entressafra.

O Que Está em Jogo

Mais que combustível, o etanol define parte da matriz energética de um país que prometeu neutralidade de carbono até 2050. A instabilidade atual compromete investimentos no setor.

Sem previsibilidade, usinas não modernizam equipamentos. Sem competição real na distribuição, eficiência não se converte em preço menor na ponta.

A questão não é técnica. É política. E judiciária. Envolve escolhas sobre como regular mercados essenciais. Sobre quanto poder concentrar em poucas empresas. Sobre se a transição energética será conduzida pelo Estado ou pelo oligopólio.

Por enquanto, o etanol cai em 17 estados. E o Brasil segue sem resposta para a pergunta central: quem comanda o preço da energia que movimenta o país?