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O espelho invertido: quando esquerda copia métodos da direita

O espelho invertido: quando esquerda copia métodos da direita
Foto: redir.folha.com.br

Dois países latino-americanos acabam de realizar eleições. Em ambos, candidatos alinhados a Donald Trump venceram. Em ambos, os derrotados contestam o resultado alegando fraude. A diferença? Desta vez, quem grita fraude é a esquerda.

O que testemunhamos é uma inversão de papéis que diz muito sobre o momento político da região. O repertório que Trump popularizou em 2020 — questionar urnas, denunciar manipulação, recorrer ao judiciário — migrou para o outro lado do espectro ideológico. A contestação eleitoral deixou de ser marca registrada da direita populista para se tornar ferramenta à disposição de quem perde.

A normalização da desconfiança

Durante anos, a direita latino-americana importou o manual trumpista: deslegitimar instituições eleitorais antes mesmo do pleito, criar narrativa de vitimização, mobilizar bases através da dúvida sistemática. Foi assim com Bolsonaro no Brasil. Foi assim com setores da oposição venezuelana em momentos específicos.

Agora, a esquerda descobriu que o mesmo script funciona para ela. E funciona porque a população já foi condicionada a duvidar. O terreno da desconfiança, uma vez preparado, serve a qualquer um que precise dele.

O problema estrutural é evidente: quando todos os lados questionam resultados desfavoráveis, o sistema democrático perde seu mecanismo básico de legitimação. Eleições deixam de ser o método de resolução de conflitos para se tornarem apenas mais uma etapa da disputa — que segue nas ruas, nos tribunais, nas redes sociais.

O poder judiciário como protagonista involuntário

A consequência imediata deste cenário é a judicialização total da política. O poder judiciário, que deveria ser árbitro ocasional, vira protagonista permanente. Cada eleição termina não com a apuração dos votos, mas com a decisão de juízes sobre contestações, recursos, pedidos de auditoria.

Este movimento sobrecarrega e desgasta as instituições judiciais. Tribunais eleitorais passam a decidir não apenas questões técnicas sobre o processo, mas sobre a própria legitimidade dos resultados. E como toda decisão judicial em contexto polarizado é lida como política, os tribunais perdem neutralidade percebida — independente de sua atuação real.

A análise dos casos recentes mostra padrão similar: alegações genéricas de irregularidades, sem provas robustas; mobilização imediata de apoiadores; pressão sobre autoridades eleitorais; internacionalização da disputa através de apelos a organismos externos.

O precedente que se consolida

O risco maior não está nos casos individuais, mas no precedente que se estabelece. Quando contestar eleições vira regra — independente de evidências —, cria-se incentivo perverso. Candidatos passam a calcular que têm pouco a perder e muito a ganhar ao questionar resultados adversos.

Parte da base vai acreditar na narrativa de fraude. Outra parte, mesmo cética, vai apoiar a contestação como forma de pressão política. O custo reputacional de ser mau perdedor diminui quando a prática se generaliza.

Este fenômeno não é exclusivamente latino-americano, mas encontra na região terreno fértil. Instituições ainda em consolidação, histórico de fraudes reais em décadas passadas, desigualdade que alimenta desconfiança, polarização amplificada por redes sociais — tudo contribui para que a dúvida sistemática prospere.

Além da simetria superficial

Seria simplista, porém, traçar equivalência total entre contestações de direita e esquerda. O conteúdo das alegações, a natureza das instituições questionadas, o contexto político específico de cada país importam. Nem toda contestação é golpismo disfarçado; nem toda defesa de resultado é defesa da democracia.

O que preocupa é a normalização do método. Quando a contestação automática se torna estratégia padrão, independente de fundamento, o terreno comum necessário à democracia se dissolve. Não há sistema que sobreviva à desconfiança permanente em seus mecanismos básicos de funcionamento.

A América Latina já conheceu o custo da instabilidade institucional crônica. O século XX está repleto de exemplos de democracias que ruíram não por golpes abruptos, mas por erosão gradual da confiança em processos elementares. A repetição desse padrão, agora com roupagem moderna e partidários de ambos os lados, não augura nada de bom.

O espelho invertido mostra que o problema transcende coloração ideológica. Trata-se de disputa sobre as regras do jogo — e sobre se ainda haverá jogo a ser jogado.