Política

O envelhecimento que a reforma política brasil não discute

O envelhecimento que a reforma política brasil não discute
Foto: Metrópoles

Alexandre Borges, 59 anos, olha no espelho e vê o que muitos brasileiros negam: o tempo passa. Sem botox, sem preenchimentos, sem a parafernália estética que virou norma em Brasília e nos estúdios de TV. O ator acendeu um debate involuntário sobre envelhecimento — e expôs uma fratura geracional que a reforma política brasil teima em ignorar.

O Brasil envelhece rápido. Dados do IBGE mostram que até 2060 teremos 58 milhões de idosos, quase um terço da população. Mas a elite política age como se juventude fosse eternizável a bisturi.

A gerontocracia do botox

Enquanto Borges assume rugas com naturalidade, o Congresso Nacional abriga uma classe política que envelhece biologicamente mas rejeita qualquer simbologia da passagem do tempo. Não por acaso: aceitar a velhice implicaria aceitar a sucessão.

A contradição é brutal. Parlamentares septuagenários aprovam reformas que afetam aposentadorias alheias enquanto investem fortunas em procedimentos para parecerem duas décadas mais jovens. O recado subliminar: envelhecer é para os outros.

Nenhuma discussão séria sobre reforma política brasil inclui o tema geracional. Renovação virou palavra vazia, repetida em palanques mas esvaziada na prática. A média etária da Câmara dos Deputados é 50 anos. Do Senado, 59. Mas o poder real está concentrado nas mãos de quem ultrapassou os 65 há tempos.

Precedente internacional

Outras democracias enfrentaram o dilema. A França de Macron foi eleita justamente como antídoto à gerontocracia. Os Estados Unidos viram Biden, aos 81, tornar-se símbolo de um sistema incapaz de se renovar — mesmo aliados democratas admitiram, nos bastidores, que a idade pesou.

O Reino Unido estabeleceu idade limite para a Câmara dos Lordes. Não por preconceito etário, mas por reconhecer que representatividade exige equilíbrio geracional.

No Brasil, qualquer sugestão nesse sentido é recebida como heresia. O direito à candidatura sem limite de idade virou dogma. O resultado: uma classe política desconectada das urgências de quem ainda terá de viver 40, 50 anos com as consequências das decisões tomadas hoje.

O que Alexandre Borges tem a ver com isso

Tudo. Sua fala despretensiosa — "sinto o impacto da idade ao olhar para o espelho" — carrega uma honestidade ausente do debate público brasileiro.

Políticos não admitem envelhecer porque envelhecimento implica finitude. E finitude implica sucessão. E sucessão implica perda de poder.

A indústria estética brasileira fatura R$ 70 bilhões anuais. Parte considerável vem de quem ocupa cargos públicos e transforma a negação da idade em performance política. O corpo esticado como metáfora do mandato eterno.

Enquanto isso, o país real envelhece sem rede de proteção adequada. O SUS mal dá conta de demandas geriátricas básicas. Asilos viraram sinônimo de abandono. Políticas públicas para idosos inexistem além do discurso.

A reforma que não vem

Qualquer reforma política brasil minimamente séria precisaria enfrentar a questão geracional. Não com proibições, mas com incentivos à renovação. Cotas geracionais nas listas partidárias. Financiamento progressivo para candidaturas mais jovens. Mecanismos que equilibrem experiência e renovação.

Nada disso está em discussão.

O sistema se retroalimenta: políticos velhos escolhem sucessores que perpetuem seu poder por procuração. Filhos, netos, afilhados políticos. A idade biológica se renova, mas a mentalidade permanece senil.

Alexandre Borges não propôs reforma alguma. Apenas foi honesto sobre rugas. Mas essa honestidade — tão rara em tempos de filtros, preenchimentos e botox — funciona como espelho incômodo para uma elite que governa negando o óbvio: ninguém escapa do tempo. Nem atores. Nem deputados. Nem o país que envelhece enquanto seus governantes fingem juventude eterna.