Política

Eduardo Bolsonaro adia cidadania americana e mira volta ao Brasil

Eduardo Bolsonaro adia cidadania americana e mira volta ao Brasil
Foto: Metrópoles

Eduardo Bolsonaro não vai pedir cidadania americana. O ex-deputado federal, que vive em Washington com green card desde que deixou o Congresso, afirmou ao Metrópoles que sua prioridade é retornar ao Brasil. A declaração chega em momento estratégico: com o pai fora da disputa até 2030 e a direita brasileira fragmentada.

O green card garante residência permanente nos Estados Unidos sem exigir naturalização. Eduardo pode trabalhar, viver e até influenciar politicamente — sem renunciar formalmente à nacionalidade brasileira. É um arranjo confortável para quem quer manter os pés em dois países.

O cálculo político por trás da permanência

A decisão de Eduardo expõe uma contradição clássica do presidencialismo de coalizão brasileiro: lideranças que criticam o sistema enquanto preparam seu retorno a ele. Durante três mandatos como deputado federal, Eduardo integrou a base governista de Michel Temer e depois a própria gestão do pai. Conhece bem o jogo.

Agora, à distância, ele observa a direita brasileira disputar espaço sem Jair Bolsonaro. Governadores como Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado emergem como alternativas. O próprio clã Bolsonaro se divide entre Michelle, Flávio e o retorno de Eduardo.

A permanência nos EUA oferece vantagens táticas. Eduardo mantém proximidade com a administração Trump, participa de eventos conservadores americanos e constrói uma imagem internacional. Simultaneamente, evita o desgaste cotidiano da política brasileira — as negociações de coalizão, os escândalos menores, a exposição constante.

Precedentes históricos de políticos no exílio voluntário

A história brasileira registra poucos casos de políticos que escolheram residir no exterior mantendo ambições domésticas. Leonel Brizola ficou no Uruguai durante a ditadura, mas era exílio forçado. Collor tentou algo parecido após o impeachment, sem sucesso eleitoral posterior.

O caso de Eduardo é diferente. Não há mandado de prisão. Não há condenação. Não há impeachment. Há uma escolha — e essa escolha revela muito sobre as transformações do presidencialismo brasileiro nas últimas décadas.

O sistema político que consolidamos desde 1988 premia a presença constante. Coalizões se constroem no dia a dia. Apoios se negociam em corredores. Ausência significa irrelevância, especialmente para quem não controla uma máquina partidária robusta.

O PSL, partido pelo qual Eduardo se elegeu três vezes, implodiu. O PL, atual refúgio da família, é presidido por Valdemar Costa Neto — político tradicional do presidencialismo de coalizão que os Bolsonaro diziam combater. A ironia não poderia ser mais evidente.

O green card como rede de segurança

Eduardo justifica o green card como "segurança jurídica". A expressão é significativa. Não se trata de segurança física — ele não enfrenta ameaças concretas no Brasil. Trata-se de segurança política e judicial.

Investigações sobre os atos de 8 de janeiro seguem em andamento. Eduardo não foi formalmente acusado, mas seu nome circula em depoimentos. O green card garante que, em último caso, há uma saída.

Essa postura contrasta com o discurso bolsonarista tradicional. Durante anos, a família criticou políticos que buscavam "portos seguros" no exterior. Agora, Eduardo faz exatamente isso — com a diferença de que mantém a retórica do retorno.

Fragmentação da direita e o futuro incerto

A direita brasileira vive seu momento mais fragmentado desde a redemocratização. Sem Bolsonaro elegível até 2030, pelo menos seis nomes disputam a liderança. Governadores controlam máquinas estaduais. Militares se afastaram. Empresários buscam alternativas.

Nesse cenário, Eduardo calcula. Voltar agora significa disputar espaço com Flávio no Senado e com uma dezena de nomes na corrida presidencial de 2026. Ficar significa preservar capital político para 2030 ou além.

O presidencialismo de coalizão brasileiro, porém, não costuma premiar ausentes. O sistema favorece quem negocia, quem articula, quem está presente nas votações decisivas e nas conversas de bastidor.

Eduardo Bolsonaro aposta que as regras mudaram. Que redes sociais e conexões internacionais substituem presença física. Que a marca "Bolsonaro" vale mais que articulação política tradicional.

A história política brasileira sugere o contrário. Mas Eduardo, ao menos, garantiu seu green card caso a aposta não funcione.