A disputa pela soberania: Bolsonarismo tenta roubar bandeira de Lula
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, acaba de fazer uma aposta arriscada. Ao prometer que Flávio Bolsonaro "resgatará a soberania nacional" se eleito em 2026, o emedebista captura — sem disfarce — a principal narrativa do governo Lula.
Estamos diante de um fenômeno clássico da política contemporânea: a apropriação semântica. O que antes era patrimônio retórico da esquerda agora migra, sem cerimônia, para o discurso da direita bolsonarista.
O contexto da virada discursiva
A declaração de Nunes não surge no vácuo. Ela responde a um momento específico: as tarifas impostas por Donald Trump e a reação global do Planalto, que transformou "soberania nacional" em mantra oficial.
O timing é revelador. Enquanto Lula articula resistência econômica às pressões americanas e defende o Pix contra críticas internacionais, o bolsonarismo — historicamente alinhado a Washington — tenta reposicionar-se.
A operação é mais complexa do que parece. Trata-se de disputar o centro do tabuleiro político brasileiro: o nacionalismo moderado, essa zona nebulosa onde cabem tanto o desenvolvimentismo quanto o conservadorismo.
Quem disputa o quê, exatamente
De um lado, o governo petista defende soberania via multilateralismo, BRICS e políticas públicas distributivas. De outro, o bolsonarismo promete soberania via ordem, segurança e alinhamento seletivo com potências.
São duas versões incompatíveis do mesmo conceito. Uma, enraizada na tradição getulista e desenvolvimentista. Outra, improvisada às pressas para ocupar espaço eleitoral.
Flávio Bolsonaro, o candidato em questão, carrega uma trajetória que complica essa narrativa. Senador investigado, filho do ex-presidente, símbolo de uma direita que sempre priorizou Washington sobre Brasília.
O precedente histórico que importa
Não é a primeira vez que a direita brasileira flerta com o nacionalismo. Nos anos 1930, integralistas tentaram fundir conservadorismo e anti-imperialismo. Fracassaram.
Nos anos 1960, setores das Forças Armadas defenderam "desenvolvimento com segurança" — uma soberania tutelada, condicional, subordinada ao anticomunismo. Funcionou por duas décadas, até implodir.
O bolsonarismo tenta agora sua própria síntese. Mas enfrenta um problema estrutural: sua base eleitoral não necessariamente compra a narrativa soberanista. Parte significativa do eleitorado de direita prefere alinhamento automático aos Estados Unidos.
Para quem essa disputa realmente importa
O embate retórico esconde uma disputa material por três segmentos eleitorais decisivos:
- O trabalhador industrial do ABC e do Sul, sensível ao discurso protecionista
- O empresário médio, assustado com instabilidade cambial e tarifária
- O nacionalista difuso, presente em todas as classes, que rejeita submissão externa
Esses grupos não são ideológicos. São pragmáticos. Votam em quem promete estabilidade econômica com dignidade nacional — uma combinação rara na política brasileira.
O problema da credibilidade
Nunes aposta que o eleitor esqueceu. Esqueceu Bolsonaro comemorando a eleição de Trump. Esqueceu a pressão americana pela base de Alcântara. Esqueceu o alinhamento automático nas votações da ONU.
Essa amnésia seletiva é a aposta central da estratégia. Se funcionar, o bolsonarismo consegue operar uma das maiores guinadas retóricas da história recente. Se falhar, expõe ainda mais suas contradições.
O governo Lula, por sua vez, não pode relaxar. Soberania é conceito volátil. Depende de resultados econômicos tangíveis. Se a inflação subir ou o câmbio disparar, o discurso perde tração.
O que vem pela frente
A disputa pela narrativa soberanista definirá parte importante da campanha de 2026. Não porque seja o tema mais relevante — economia e segurança pesam mais. Mas porque funciona como metacategoria, como moldura que organiza outros debates.
Quem controla o significado de soberania controla como o eleitor interpreta acordos comerciais, políticas cambiais, relações internacionais. Controla, em última análise, a própria identidade nacional em disputa.
Ricardo Nunes sabe disso. Por isso capturou a palavra antes que ela se cristalizasse no campo adversário. Resta saber se o eleitor comprará a versão bolsonarista de um conceito que, até ontem, pertencia à esquerda.